quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

A vitória nossa de cada dia - II

Temos feito das terapias um vício e da unanimidade, medida

Temos seguido um salvador à cada esquina

Temos até feito dos iguais novos bárbaros

Temos feito dos manuais (todos) bíblia

Temos erigido fortes em plena cidades
e se para longe destas
temos buscado refúgio
temo-nos esquecido
que em toda fuga
também vamos juntos

Temos cultivado flores de plástico
porque de outra forma já não saberíamos morrer

Temos feito do amor uma técnica

Temos feito da tv uma janela zoológica do mundo

Temos exilado palavras e com esse mesmo mundo
mantido imediatos contatos de 1º grau

E temos considerado isso a nossa vitória de cada dia
à cada dia

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Peregrinação

Assim como todo muçulmano deve, ao menos uma vez na vida, visitar Meca, deveríamos, ao menos uma vez ao ano, por um imperativo existencial, peregrinar até os mares, para vislumbrar, naquela superfície imanente-transcendente, a memória das lágrimas de Deus...

Se existe, por garantia constitucional, a liberdade de ir e vir, advogo o inalienável direito natural do dever (de cada um) de mergulhar no mais inescrutável dos elementos...

Se a torre psicanalítica investiga os desvãos da alma e, assim, busca as raízes de nossas obsessões e fobias, por que não perscrutar também essa estranha simbiose com a morada de Netuno?

“Será magia, milagre, miragem... será mistério?

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

O que querem as mulheres

“Afinal, o que querem as mulheres?”... eis o que teria questionado Freud, dando voz ao mistério que a psicologia, a estética e os homens tentam há séculos responder.

E o curioso é que não existe na história do pensamento nenhuma discussão correspondente quanto ao universo masculino, dada à obviedade do que procuram os homens quanto não estão lutando pelo poder.

E do que os homens podem se queixar, uma vez que jamais precisaram queimar peças íntimas para protestar contra qualquer forma de opressão sexista? Se nem o pai da psicanálise explica a natureza ora feérica, ora frágil, meio Psique, meio Afrodite do sexo forte, quem se atreve a responder à pergunta, que não quer calar, sem parecer ridículo, reducionista, alienado, incompetente... ou coisa pior? Além disso, ainda que eu o soubesse, não o diria. Lembram-se do adivinho Tirésias, da mitologia grega, que teria já experimentado a condição de ser homem e mulher? Pois bem, ele ficou cego por castigo divino, justamente por revelar um dos segredos da condição feminina: a mulher sentiria 9 vezes mais prazer que os homens! Já pensou: jamais flagrar outra vez a vizinha do 208? Já nos lembrava Gil que o (super) homem mudou a história por causa da mulher, à qual era a melhor parte dele, a que o fazia viver, posto que o verão seria o apogeu da primavera! Pois é, ministro, se for pra mudar: MULHER PRA PRESIDENTE! (Mas que não seja a Preta Gil!). Já disseram que ninguém nasce mulher, torna-se. E que em tal pedagogia incluem-se, em regime full time, as disciplinas: hormônios (como lidar com o agente da personalidade múltipla); homens (lembrem-se: apenas alguns são de Marte, boa parte é de Plutão); Amor x Desejo (diferenças neurológicas entre os sexos); Trabalho (capacidade lingüística e relações pessoais: o futuro é feminino) etc. Ok, machistas de plantão dirão que estou fazendo lobby subliminar! Mas, companheiros, respondam-me: por quem trabalhamos horas extras? Por quem sofremos tanto? Por quem perdemos noites de sono? Quem é a razão de nossa existência? Para quem nos engravatamos, nos perfumamos e até mesmo...mudamos? Pra mim, todo dia é dia da mulher!!!!!!

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

cinema surreal

sonhei com Tânia Rivera sussurando em meu ouvido: “então, adentramos naquela câmara escura, endereço de um erotismo difuso, onde ressonam pedaços de vida em latente estado de sonho... eis as janelas do indivisível; o corte na dimensão ordinária da vida... esta mesma que se encontra suspensa no alto de um mirante, de onde contemplamos dramas e comédias sem saber divisar suas águas... eis a superfície onírica, o muro e o furo de onde escapam, para onde exilam o fluxo dos desejos represados, o caudaloso rio das pulsões, o céu que nos protege, as imagens em forma de tango, a lente caleidosópica que homogeneíza o caos... o que se confunde com real de cada um, com o então desejo nosso de compartilhar estranhos, no escuro da câmara, um sono em estado de vigília, uma hipnose coletiva, um transe induzido por psicodélicas imagens... eis a gênese, fundamento e dimensão da experiência... a que chamamos cinema...

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Incompletude

Incompletude é nossa grife de origem, precariedade, a marca batismal da espécie homos carentius...

o endereço de nossos desejos é o exílio, onde a oferta daquilo que nos fará plenos é a paisagem com a qual sonhamos...

ali, nesse eldorado onde o id não conhece limites e o superego é persona non grata, não especularemos sobre a essencial questão: ‘se o prazer permanece, permanecerá o prazer?’...

a história da humanidade, de cada um, é o itinerário de suas conquistas, das vontades suprimidas, que um dia, já longínquas, tornar-se-ão ausência... mas ausência será falta?

A meninice que nos escapou? as idades que nos atravessaram, e em que nossa rede de lembranças brotam, agora, feito cintilantes estrelas-do-mar, cavalos-marinhos? o agridoce dos beijos partidos? o gosto de terra molha das perdas? os amores que sempre foram uma espera... de longos dias?

faltas, ausências, desejos!

Por um mecanismo de amnésia seletiva, descobrimos que as ausências são descobertas tardias, e que as faltas são a única onipresença em nossas vidas... ausência é a face dos instantes pretéritos, enquanto a falta, ciência de que as coisas são intempestivas: ou ontem morreram, ainda hesitantes, ao alcance de nossas mãos, ou mesmo resistem, incólumes e uivantes, no onírico horizonte, num cais de sonhos remanescentes... se a falta nos move, a ausência nos demove? Falta não será também ausência daquilo que não se viveu? Uma nostalgia pelo que virá? Sim, “falta são pedaços de nós rompendo os limites do tempo-espaço, fazendo-nos existir no presente e passado”...

O que os budistas responderiam sobre o desejo de não desejar? ‘tudo é dor e toda dor vem do desejo de não sentirmos dor’... Sem dor, como atingir o gozo? Sem gozo, como atingir o equilíbrio? É como a experiência romântica: no amor, ao pedir beijos e climas de suspense, leva-se também, ciúmes e climas de suspense... e tal kit não pode ser obtido separadamente... anulando-se o desejo (quanta abstracione, Dios mio!), automaticamente, a falta desapareceria? Que falta a falta faz... A plenitude da ausência?

Titanicamente, lembro que a gente não quer só comida, mas, diversão, arte, fazer amor, entender o imponderável, sentir o inefável, alcançar o infinito... e cantar sobre nossa incompletude... pra sacar que nosso quadro é um eterno mosaico!

domingo, 18 de novembro de 2007

Bebemos, cantamos e só restou... Fantasia

E se, de repente
A gente não sentisse
A dor que a gente finge
E sente
Se, de repente
A gente distraísse
O ferro do suplício
Ao som de uma canção
Então, eu te convidaria
Pra uma fantasia
Do meu violão

Canta, canta uma esperança
Canta, canta uma alegria
Canta mais
Revirando a noite
Revelando o dia
Noite e dia, noite e dia
Canta a canção do homem
Canta a canção da vida
Canta mais
Trabalhando a terra
Entornando o vinho
Canta, canta, canta, canta
Canta a canção do gozo
Canta a canção da graça
Canta mais
Preparando a tinta
Enfeitando a praça
Canta, canta, canta, canta
Canta a canção de glória
Canta a santa melodia
Canta mais
Revirando a noite
Revelando o dia
Noite e dia, noite e dia

Chico Buarque/1978


sábado, 17 de novembro de 2007

A noite e a falta

A noite...

Falamos da fala.
Da falta e do desejo... não, não da falta de desejo, mas da falta, que é um desejo.
Busca insadecida por esse algo que não sabemos.
Da falta, do desejo, e da ausência.
Ausência, desejo aprisionado, estacionado.
Desejo remetido a algo que não está.
Pedaços de nós rompendo os limitess tempo-espaço, fazendo-nos existir no presente e passado.
Ausência que nos acalenta com sentimentos confortáveis. Traz o dissabor da perda implícita, mas também do "algo bom"... algo bom que sempre se torna melhor com o passar do tempo e com a distância.

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Concertos e desconcertos interiores

Essa terça é a sensação da vida parada no ar na perspectiva de um Dorival Caymmi... então, nos sentimos como aqueles países que carecem de uma revolução para mexer nas estruturas... devíamos "trocá-la por duas sextas à tarde"...quem sabe!... seria inconstitucional? fugir do trabalho, arremessar o chefe pela janela: isso seria uma espécie de reposição hormonal, não?

Sabe esses “concertos interiores” que parecem nunca afinar? Essa sinfonia de vozes discordantes, mais retalhada que o PT?

Vc não pressente existir alguma coisa autônoma que nos permite dizer: meu corpo, minha mente, minha alma? Como se fôssemos a soma disso... ou uma essência inescrutável?

A arte só seria possível devido a essas semitonações? Qual a idade do tempo? O sabor do vento? O marco zero do universo?

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Eram dois anjos a flanar pela avenida, a inventariar cada aresta da vida, objeto de sua especulação eterna. Testemunhas da criação, consciências do tempo em seu devir, eram os anjos os olhos de Deus. Lá embaixo a cidade, a arena feérica dos sabores, o palco dos amantes, a fugaz morada da alegria; logo ali, o reino das promessas e dos beijos partidos, a senda das ilusões.

Repara, Luc, nós, anjos a pairar solenemente sobre os ombros dessa cidade, nós que pelo sono dos séculos já vislumbramos o infinito, porém, o que sabemos acerca da fina matéria da vida? Nós que apenas somos insones ouvidos da consciência humana, fiéis antenas a sorver o licor das angústias, e o vinho dos desejos; nós, a sombra que não se anuncia, estamos tão perto, tão longe da pedra que nos fascina: a vida. Hoje, em meus vislumbres pelos cantos da cidade, vi um velho em sua nova infância, a valsa de um bêbado, homens na janela a resgatar memórias do que não viveram; vi alguns confessarem em seus diários aquilo que silenciaram em sua consciência, e mais adiante, um jovem atraído pela tentação de voar e perder, assim, o peso do seu passado... e do seu futuro.

Lub, deves ter percebido enquanto o vento a conduzia: quantos não vivem como sonâmbulos quando despertos e acordados quando sonham?; quantos não buscam o absinto dos estados alterados da percepção?; tomam o amor como um elixir, panacéia, codinome para a salvação: se apaixonam e convertem o ser amado em bússola, cruz e altar, e as cavalares doses com que alimentam sua frenética busca não encontra paralelo nem mesmo em nosso mundo de sombras.

Lud, quantos não percebem que desejam mais o desejo que propriamente o ser de carne e dúvidas? Como será, me diga, como será sentir o gosto do outro? Quantos sabores ele ocultará? Como será estar sempre na colorida lembrança de alguém? Beber o oceano, queimar os lábios com chocolate, agasalhar um corpo? Como será queimar-se nos primeiros instantes da aurora e banhar-se de lua? Que sabor haverá na respiração da criança que dorme, apenas perceber o silêncio da chuva que cai? Os pés nus sobre o orvalho da montanha, o vento no labirinto das cidades, os olhos a nos perceber, a nos desejar, a nos convidar para desbravar a cordilheira das esquinas, como será?

Diga-me: como será?

domingo, 11 de novembro de 2007

Desaconselhe-se

Trinta e uns anos: nessa idade o espírito já adquiriu aquela consistência rara dos bons vinhos, aquele humor de quem sabe rir de si mesmo, aquela certa desconfiança de que a nossa vida não é a única a ser uma versão moderna de uma tragédia grega.

Com a autoridade de quem já tem precedente nessa idade pelo fato de já tê-la vivido, antecipo algumas descobertas dessa experiência sui generis:

1 - Não seja realista, que é o pessimismo crônico. Viva a vida como ela poderia ser: sim, qualquer semelhança com a realidade terá sido mera coincidência.
2 - Seja, antes de tudo, espontânea ainda que à custa de muito ensaio; e principalmente no amor - certamente, a mais inexata das ciências, cuja única cláusula pétrea é a ausência de leis.

3 - Não tenha problemas, cultive problemáticas :
- seja cética quanto ao ceticismo

- caso sofra por algum motivo, seja legítima: que seja por razões empíricas
- cultive, sempre, uma dúvida cartesiana em relação aos objetos (principalmente quando estes últimos forem sujeitos)

4 - Viaje para o interior: mais barato e sem contra-indicação ...

5 - Cultive o hábito de ter:
- um amor platônico ( e o transforme em aristotélico!)
- um segredo impublicável ( pelo menos em parte, senão de que valeria ter um? )
- um tempo agendado... para o acaso
- admiradores e admirados

6 - E sempre que puder, roube, roube bastante flores do campo e as ofereça a terceiros sem segundas intenções: esse crime certamente compensará...

7 - Em se tratando de sexo, prefira o clássico ao moderno.

8 - Enfim, descarte as receitas de vida como esta e crie as suas próprias, ainda que com o único intuito de contra elas se rebelar...

E lembre-se: o que é bom para a alma, é bom para a pele...

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Cena 3

cho que a discrição faz parte do nosso show! Fico imaginando o que alguém como vc faz num consultório!

- nem só de culpas vive o homem!

- Um complexo de Édipo mal resolvido ou um transtorno obsessivo-compulsivo?

- Impossível guardar segredos hoje em dia, não? Na verdade, tento superar uma grande frustração: se Alexandre, o grande, conquistou todo o mundo conhecido em sua época, aos 32 anos, imagine eu, um pouco mais velho, que ainda não conquistei o que preciso, como não me sinto? Suponho que vc tenha ambições mais modestas que a dele!

- conquistar meu mundo e tudo o que nele caiba, talvez seja algo mais ambicioso que o sonho de Alexandre!

- Se eu lhe dissesse que este também é meu sonho de consumo, vc acreditaria?

- Vidente, porteiro, frustrado e agora plagiador?

- conhece algum lugar onde eu poderia apresentar um currículo desse nível?

- ouvi dizer que estão recrutando figurantes para uma cena de um filme-catástrofe... não exigem experiência!

- eu sabia que tinha alma de artista! Pena não ser meu gênero predileto! E nem o seu!

- acho que meu gênero é rir hoje dos meus dramas mexicanos, achar romântico o patético chapliniano... sabe, a memória se encarrega de transformar as experiências em gêneros distintos do original...

- o problema é quando isso se torna um seriado!

- não, o problema é quando vc se torna um anti-herói!

- há um certo charme em ser apenas sucesso de crítica, e não de público!

- talvez eu seja um clássico e ainda não tenha percebido!

- os gênios são sempre incompreendidos em sua própria época, não?

- o futuro pra mim já seria tarde demais!!! Só reparei agora: o pianista se foi, a música acabou! Tenho uma fantasia cinematográfica: sempre quis pedir ao pianista: ‘play, Sam, playAs time goes by’!

- “as coisas fundamentais se aplicam com o passar do tempo”, como cantaria o Sam...

- “ luar e canções de amor nunca serão obsoletos”...

- “sempre haverá Paris!”, não se esqueça... assim como sempre haverá um homem que tocará o coração da mulher que ama!

- só se pode amar aquilo que se conhece!

- nesse caso, acho que temos um bom motivo agora para um segundo encontro!

Cena 2: Café do 10º andar

- Que tal um capuccino? Vc parece ter ficado muito tempo no frio!

- por que não? Para quem esperava por um bourbon, um café serve ao menos para despertar!

- sim, mas, cuidado, realidade em excesso faz mal pra pele!

- tem razão! E todos temos direito a um vício! O seu deve ser o capuccino!

- isso não lhe parece condizente com a minha condição de porteiro?

- e por isso há o agravante de ser uma daquelas pessoas com hábitos noturnos!

- por opção, e não por condição. Certas coisas se revelam melhor na ausência de muita luz.

- nesse caso, acho que vc não se adaptaria a certas regiões ibéricas, onde o sol só se põe às 22h.

- bem, se a natureza foi sábia me impedindo de nascer por lá, quanto a vc, ela foi bem cortês: pelo seus olhos castelhanos, eu diria que vc é descendente de espanhóis; pelo seu andar, é bailarina; e pelo modo como toca o enfeite da mesa, artista plástica!

- e vc deve ser um detetive precocemente aposentado!

- além de porteiro nas horas vagas, não se esqueça! Na verdade, não estou interessado no número de sua RG, se seu nome consta no Cadastro de Inadimplentes ou se vc já se submeteu a cirurgias estéticas!

- acho que nessas circunstâncias posso abrir uma exceção e confessar meus pecados: sou de escorpião, pratico arvorismo... mas estou longe de ser vegetariana

- que coincidência: sou taurino, escrevo poemas no outono e me encontro em plena carreira solo!

- em termos profissionais? - cardiológicos!

- deve ser um esporte interessante: este de realizar duetos em noites de inverno, não?

- nem sempre os tons afinam. Aliás, essa música ao fundo não é o Chico?

- Ele está onde menos se espera, não é?.... como se fosse uma onipresença... um oráculo...

“o amor não tem pressa/ ele pode esperar em silêncio/ num fundo de armário/ na posta-restante/ milênios, milênios/ no ar / e quem sabe, então o Rio será alguma cidade submersa/ os escafandristas virão explorar sua casa/ seu quarto, suas coisas/ sua alma, desvãos/ sábios em vão/ tentarão decifrar/ o eco de antigas palavras/ fragmentos de cartas, poemas/ mentiras, retratos/ vestígios de estranha civilização...”

- sim, é como um presságio...

“Não se afobe, não/ que nada é pra já/ amores serão sempre amáveis/ futuros amantes, quiçá se amarão sem saber/ com o amor que eu um dia deixei pra você”

Silêncios.

- já que vc é versado em Chico, deve conhecer esta:

“te perdôo/ por fazeres mil perguntas/ que em vidas que andam juntas/ ninguém faz/ te perdôo/ por pedires perdão/ por me amares demais/ te perdôo por ligares/ pra todos os lugares/ de onde eu vim/ te perdôo por ergueres a mão/por bateres em mim/ te perdôo/ quando anseio pelo instante de sair/ e rodar exuberante/ e me perder de ti/ te perdôo/ por quereres me ver/ aprendendo a mentir (te mentir, te mentir)”

- a temática da culpa não é meu forte, aliás, meu terapeuta me costuma dizer que não deveríamos cultivar culpas, no máximo, admitir um dolo eventual... prefiro aquela outra canção:

“me ensina a não andar com os pés no chão/ para sempre é sempre por um triz/ diz quantos desastres tem na minha mão/ diz se é perigoso a gente ser feliz”...

Ela desvia o olhar e o assunto.

- Isso aqui está parecendo um festival da mpb!

- nesse caso deveríamos cobrar couvert; o que me diz?

- acho que a discrição faz parte do nosso show! Fico imaginando o que alguém como vc faz num consultório!

- nem só de culpas vive o homem!

- Um complexo de Édipo mal resolvido ou um transtorno obsessivo-compulsivo?

- Impossível guardar segredos hoje em dia, não? Na verdade, tento superar uma grande frustração: se Alexandre, o grande, conquistou todo o mundo conhecido em sua época, aos 32 anos, imagine eu, um pouco mais velho, que ainda não conquistei o que preciso, como não me sinto? Suponho que vc tenha ambições mais modestas que a dele!

- conquistar meu mundo e tudo o que nele caiba, talvez seja algo mais ambicioso que o sonho de Alexandre!

- Se eu lhe dissesse que este também é meu sonho de consumo, vc acreditaria?

- Vidente, porteiro, frustrado e agora plagiador?

- conhece algum lugar onde eu poderia apresentar um currículo desse nível?

- ouvi dizer que estão recrutando figurantes para uma cena de um filme-catástrofe... não exigem experiência!

- eu sabia que tinha alma de artista! Pena não ser meu gênero predileto! E nem o seu!

- acho que meu gênero é rir hoje dos meus dramas mexicanos, achar romântico o patético chapliniano... sabe, a memória se encarrega de transformar as experiências em gêneros distintos do original...

- o problema é quando isso se torna um seriado!

- não, o problema é quando vc se torna um anti-herói!

- há um certo charme em ser apenas sucesso de crítica, e não de público!

- talvez eu seja um clássico e ainda não tenha percebido!

- os gênios são sempre incompreendidos em sua própria época, não?

- o futuro pra mim já seria tarde demais!!! Só reparei agora: o pianista se foi, a música acabou! Tenho uma fantasia cinematográfica: sempre quis pedir ao pianista: ‘play, Sam, play As time goes by’! - “as coisas fundamentais se aplicam com o passar do tempo”, como cantaria o Sam... - “ luar e canções de amor nunca serão obsoletos”... - “sempre haverá Paris!”, não se esqueça... assim como sempre haverá um homem que tocará o coração da mulher que ama!

- só se pode amar aquilo que se conhece!

- nesse caso, acho que temos um bom motivo agora para um segundo encontro!

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Mise en scène


Cena 1: No terraço de um prédio, por volta das 21h, uma mulher parece ansiar pela chegada de alguém. Um cigarro após outro, sua aflição vai cedendo lugar a uma resignação amarga. Um homem que a observa há 1 hora, aproxima-se e pergunta:

- Parece que quem vc estava esperando não errou a hora, mas o dia!

Ela sem virar a cabeça, responde-lhe:

- Além da vidência, vc tem alguma outra qualidade?

- Bem, costumo resgatar garotas solitárias em noites estreladas

Meio ácida, volta-se pare ele e emenda:

- Não me diga... isso é algum tipo de vocação filantrópica?

- Só tento fazer desse mundo um lugar melhor!

Ele puxa um cigarro:

- Vc tem fogo?

- Acho que sobrou alguma coisa...

Ela lhe acende o cigarro e responde:

- “Dizem que fumar mata lentamente!

- Não tenho pressa de morrer!”

- Acho que vidência é contagiosa: sou capaz de apostar que vc é o porteiro daqui! Toda noite espera que uma situação dessas ocorra... então,

troca o seu uniforme pelo terno que comprou em 18 prestações e entra em cena para viver o clímax do seu dia!

- Garota, ninguém pode negar que vc não tem talento para a ficção!

- Meu pai sempre dizia que as ilusões têm vida curta!

- Vc me parece bem real

Sorridente e meio cínica, ela diz:

- Melhor não confiar na luz das estrelas!

- Sabe, tenho o grave defeito de não seguir conselhos de estranhas!

- Pois vc me parece bem familiar como uma ilusão!

- Posso durar mais que uma vida curta!

- Todas as ilusões dizem isso!

- Bem, podemos continuar nosso exercício de futurologia no Café do 10º andar?

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Ousadia

Quisera eu ter perscrutado
tuas entrelinhas
Vãos e frestas

Quisera eu
Ter revertido
A inexorável marcha do tempo
Não ter sucumbido
À implacável lei
Dos eternos sucessivos instantes
Que transformam o agora
Em memória
Sob a forma de saudade

Quisera eu
Ter construído
Castelos de limbo do tempo
E nos momentos de tua dança
Para eles ter fugido ...
Para eles ter fugido ...
Pois
Antes do medo chegar à galope
Tive receio de perder-me em teu fascínio de cigana

domingo, 28 de outubro de 2007

Quisera por querer

Quisera ser outro sonho
quisera ousar outros pontos
quisera ultrapassar a barreira do impossível
quisera, quem sabe, tornar-se invisível

Quisera tudo isso e um pouco mais
quisera o nunca visto e o que jaz em paz
quisera percorrer o abismo do infinito
quisera te encontrar aqui, no instante mais bonito

Quisera ter a chave para encontrar o abrigo
quisera ter a paz de um ombro amigo
quisera um não querer quase sem fim
mas ousar só querer, e nada houve por fim

sábado, 27 de outubro de 2007

Oração dos delirantes

Apesar de a mudança ser permanente na vida, uma certa ingenuidade subsiste, resiste em nós!

Sim, o tempo passa e creio na existência de algo especial, esperando apenas o sinal verde pra entrar em cena... como se a vida fosse a possibilidade de uma revolução;

Acredito, também, que trago um segredo, que desconheço, e que cada pessoa em minha vida vem revelar um pouco de mim... ;

Creio que a vida é uma novela, sem ensaio, repleta de personagens de improviso e na qual a gente vive esperando que os próximos capítulos possuam intermitentemente um happy end!;

Acredito que a melhor prevenção contra doenças é manter a mente nas nuvens por causa de alguém e descobrir os talentos que insuspeitamente trazemos; creio que o belo é a menor distância entre os corações;

Creio que a vida não tem culpa, quando muito, dolo eventual e que não basta se arrepender pelas escolhas... é preciso ver que a "liberdade está na dor";

Creio que aqueles que mantém muito os pés no chão... podem se alienar de si mesmos;

Creio que uma revolução num instante cabe;

Creio que, às vezes, a gente precisa dar aquilo de que mais precisa;

Creio...

terça-feira, 23 de outubro de 2007

A arte de nossos delírios

a arte de nossos delírios é sugestiva, não descritiva;
sua lente é mais verossímil que o real; não cabem óculos ao que teus sentidos filtraram... nem regulagens ao que disseste...
continua a derramar vinho sobre os verbos, até ali, então, solitários em seu pudor etimológico... rumo à lavra das palavras que, em estado de poesia já demandam alforria!

Creia-me, artesã impressionista, o quadro que pintaste é mais surreal, agora, que me fizeste lembrar das coisas que não vi: pierrôs modernizados em meio ao flerte de flores de saias, sem falar nos homens primitivos a nos instilar atavismos!
Como um demiurgo, tu implantaste com tuas miragens novas memórias em mim... retocaste o passado como uma pedagoga do olhar!!!

Sim, estivemos no meio de um barco a atravessar a noite... e agora, que o falaste, lembrei-me: éramos nós a paisagem!!! Será esse o mistério: converter-nos o olhar para o insuspeito dos dias?

Não ousem responder... quem o poderia?!!!

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Alma acizentada


O que fazer nessas dias que amanhecem cinza, mas não por fora, por conta das chuvas e das mudanças climáticas, mas sim por dentro, por conta da euforia roubada, da angústia acumulada, da esperança desgastada?

Trinta e uns...

Trinta e uns anos: nessa idade o espírito já adquiriu aquela consistência rara dos bons vinhos, aquele humor de quem sabe rir de si mesmo, aquela certa desconfiança de que a nossa vida não é a única a ser uma versão moderna de uma tragédia grega. Com a autoridade de quem já tem precedente nessa idade pelo fato de já tê-la vivido, antecipo algumas descobertas dessa experiência sui generis:

1- Não seja realista, que é o pessimismo crônico.
Viva a vida como ela poderia ser: sim, qualquer semelhança com a realidade terá sido mera coincidência.

2- Seja, antes de tudo, espontânea ainda que à custa de muito ensaio;
e principalmente no amor - certamente, a mais inexata das ciências, cuja única cláusula pétrea é a ausência de leis.

3- Não tenha problemas, cultive problemáticas :
  • seja cética quanto ao ceticismo
  • caso sofra por algum motivo, seja legítima: que seja por razões empíricas
  • cultive, sempre, uma dúvida cartesiana em relação aos objetos (principalmente quando estes últimos forem sujeitos)

4- Viaje para o interior: mais barato e sem contra-indicação ...

5- Cultive o hábito de ter:
  • um amor platônico ( e o transforme em aristotélico!)
  • um segredo impublicável ( pelo menos em parte, senão de que valeria ter um? )
  • um tempo agendado... para o acaso
  • admiradores e admirados

6- E sempre que puder, roube, roube bastante flores do campo e as ofereça a terceiros sem segundas intenções: esse crime certamente compensará...

7- Em se tratando de sexo, prefira o clássico ao moderno.

8- Enfim, descarte as receitas de vida como esta e crie as suas próprias, ainda que com o único intuito de contra elas se rebelar...

9 – E lembre-se: o que é bom para a alma, é bom para a pele...

sábado, 20 de outubro de 2007

A descida do barco

Então, iniciou-se a descida ao rio, que suspenso no 1º andar se achava: eis o prelúdio das inundações que nos levariam às cheias das artes alquímicas: o tablado segredava um alçapão; por trás, uma varanda era atravessada por um rio invisível; uma casa nascia, ali, das entranhas de outra, à nossa frente; o tempo regredia; o espaço se dilatava.
Uma batida na porta... era o passado a rondar, ainda, o coração ainda moço daquela moça... De imediato, o passado fez-se presente... nos olhos em remorsos de quem regressara, nos olhos nostálgicos de quem nunca partira... E só havia um pedido: voltar a se esconder... ali, sob o chão, fugir para um ontem distante; recriar aquele espaço sob os pés, fora do tempo, além dos ideais, aquém da coragem... cálido espaço, útero da casa, grávido de memórias... árido espaço, vazante das promessas, fotografia de silêncios eloqüentes.

Eis que chega a tempestade sob forma humana. Arrancam palavras. Açoitam lembranças. Nem um santo imóvel os demove. O mundo é pequeno demais para uma fuga; a consciência, estreita em demasia para saltar coragem do porão; o amor, largo “como um rio sem margens...”.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Devaneios, se não no título, no texto...

Tenha-se 16, 27, 38, 58, 72, 183 anos, queremos o essencial, um sentido, uma plenitude, garantias, mares e amores...

Quem consegue paz nessa vida, quem está satisfeito com o que é, faz, sente, pensa? Não teremos resposta, mas continuaremos seguindo estrelas, fazendo música, tomando vinho, desejando a lua, buscando Deus...

Dores sofisticadas também são básicas... Já dizia Vinícius: os bares estão cheios de homens vazios... sim, as igrejas estão repletas, todo dia nasce uma terapia, os shoppings também são templos, o mundo virtual parece mais real, precisamos de tango, de álcool, de um beijo que transcenda palavras, de uma criança, de rock na veia, de um sentido pra tudo isso... ‘ se eu tivesse mais alma pra dar, eu daria: isso pra mim, é viver’...

E que viver seja a medida da extravagância!!!!!!!!

Pulso navegável



“Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim.
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho.
Que momentos há em que suponho
Seres um milagre criado só para mim”.

Ei, vc já sentiu nostalgia do mar?
O que falar desse poema?

Deixai ele entrar na veia... pra quem tem alma de artista, é anticientista, não é assertivo nem articulado, vive de errância em errância, vive di-versos dispersos, tem mais angústias que Riobaldo, é assaltado por Diadorins, pra quem leva o sertão dentro de si, e ‘se bebesse o mar, encheria o que tem de fundo”, pra quem não consegue afinar os concertos interiores: receito os mares!!!

Tenha-se 16, 27, 38, 58, 72, 183 anos, queremos o essencial, um sentido, uma plenitude, garantias, mares e amores...

Quem consegue paz nessa vida, quem está satisfeito com o que é, faz, sente, pensa?
Não teremos resposta, mas continuaremos seguindo estrelas, fazendo música, tomando vinho, desejando a lua, buscando Deus...

Dores sofisticadas também são básicas... Já dizia Vinícius: os bares estão cheios de homens vazios... sim, as igrejas estão repletas, todo dia nasce uma terapia, os shoppings também são templos, o mundo virtual parece mais real, precisamos de tango, de álcool, de um beijo que transcenda palavras, de uma criança, de rock na veia, de um sentido pra tudo isso... ‘ se eu tivesse mais alma pra dar, eu daria: isso pra mim, é viver’...

E que viver seja a medida da extravagância!!!!!!!!

terça-feira, 16 de outubro de 2007

O ideal que buscamos

Ideal seria colecionar ficantes?
Ser comum ter raros instantes?

Ideal seria ser “casado no natal
e solteiro no carnaval”?

Ideal seria tomar as coincidências como premonição
E os reveses como lição?
Ideal seria flagrar a aurora boreal?
Ter crise de auto-suficiência?
Aplicar a lei da gravidade aos estados oníricos?

Ideal seria tomar a vida como um passe de mágica?
Descrever sem receio a parábola da órbita do desejo?
Mensurar dos astros em desalinho a rota do destino?

Ideal seria então
ter imaginite crônica e fantasite aguda
como condições normais de temperatura e pressão?

Ideal seria fazer cálculos aproximados
Dos riscos de um coração apaixonado?

Ideal é navegar em Delírios & Devaneios...

quinta-feira, 12 de julho de 2007

Romance antigo

Já não se fazem mais romances como antigamente! Antigamente havia uma verdadeira gramática do amor: sinais e símbolos usados pelos amantes para se corresponderem.

Dessa forma, caso você, se enamorasse por algum rapaz, tinha início aí todo um ritual de aproximação.

Primeiro, o flerte, o encantamento, a troca furtiva de bilhetes...mas nada de ficação.

Obviamente que cabia ao rapaz a iniciativa d'alguma tentativa de diálogo... por enquanto, por meio de signos: bengala para cima (estou nas alturas contigo!); envio de rosas vermelhas (estou apaixonado!); mão a coçar a fronte (cuidado! há alguém entre nós!); uma das mãos a tirar o suor do rosto (quanto trabalho me dás!).

Um hábito bastante comum naqueles tempos era o passeio na praça. Com os braços entrelaçados, lá iam as meninas-moças a fazer o sentido horário e os rapazes, o anti-horário.

Ficavam os jovens, assim, uma boa parte do tempo circulando pela praça, a telegrafarem-se mensagens, até o momento em que o rapaz, com a espada da audácia e coragem, ia ao encontro de sua princesa, cujo braço tomava e, num galope imaginário, a levava até o castelo central da praça, o banco, e então... sob a luz das nebulosas, jurava-lhe amor eterno.

Naqueles tempos, namoro era sinônimo de compromisso, o qual vingava graças ao empurrãozinho da mãe, dos vizinhos, d'alguma tia, das irmãs, do padre e até do delegado: quanta solidariedade social!

Uma vez oficializado o namoro, tinha início uma série de procedimentos que viriam "testar" a "competência" do futuro marido.

Assim, sempre que o casal ia passear, geralmente escoltado, era de "bom-tom" que o rapaz se propusesse a pagar certos "caprichos": lanches, presentes etc.

Isso sem falar que cabia ao rapaz, também, presentear sua amada com flores, livros, doces e até mesmo cartão de crédito, por que não?...

Visitas à casa da moça? Só em horário marcado e mesmo assim sem demoras!

Conversas com as irmãs? Só até onde o decoro não se chocasse com a intimidade.

Conversas a sós com a pretendida? Era possível...tão logo consumado o matrimônio!

Tanta dificuldade assim é terreno fértil para um grande amor... pensando num grande amor fui me lembrar de coisas assim...

Ouvi, ontem, que não há nenhum espelho igual à outro, por conta de angulações matemáticas... Isso significa que sempre haverá algum ...