Eram dois anjos a flanar pela avenida, a inventariar cada aresta da vida, objeto de sua especulação eterna. Testemunhas da criação, consciências do tempo em seu devir, eram os anjos os olhos de Deus. Lá embaixo a cidade, a arena feérica dos sabores, o palco dos amantes, a fugaz morada da alegria; logo ali, o reino das promessas e dos beijos partidos, a senda das ilusões.
Repara, Luc, nós, anjos a pairar solenemente sobre os ombros dessa cidade, nós que pelo sono dos séculos já vislumbramos o infinito, porém, o que sabemos acerca da fina matéria da vida? Nós que apenas somos insones ouvidos da consciência humana, fiéis antenas a sorver o licor das angústias, e o vinho dos desejos; nós, a sombra que não se anuncia, estamos tão perto, tão longe da pedra que nos fascina: a vida. Hoje, em meus vislumbres pelos cantos da cidade, vi um velho em sua nova infância, a valsa de um bêbado, homens na janela a resgatar memórias do que não viveram; vi alguns confessarem em seus diários aquilo que silenciaram em sua consciência, e mais adiante, um jovem atraído pela tentação de voar e perder, assim, o peso do seu passado... e do seu futuro.
Lub, deves ter percebido enquanto o vento a conduzia: quantos não vivem como sonâmbulos quando despertos e acordados quando sonham?; quantos não buscam o absinto dos estados alterados da percepção?; tomam o amor como um elixir, panacéia, codinome para a salvação: se apaixonam e convertem o ser amado em bússola, cruz e altar, e as cavalares doses com que alimentam sua frenética busca não encontra paralelo nem mesmo em nosso mundo de sombras.
Lud, quantos não percebem que desejam mais o desejo que propriamente o ser de carne e dúvidas? Como será, me diga, como será sentir o gosto do outro? Quantos sabores ele ocultará? Como será estar sempre na colorida lembrança de alguém? Beber o oceano, queimar os lábios com chocolate, agasalhar um corpo? Como será queimar-se nos primeiros instantes da aurora e banhar-se de lua? Que sabor haverá na respiração da criança que dorme, apenas perceber o silêncio da chuva que cai? Os pés nus sobre o orvalho da montanha, o vento no labirinto das cidades, os olhos a nos perceber, a nos desejar, a nos convidar para desbravar a cordilheira das esquinas, como será?
Diga-me: como será?
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