sexta-feira, 23 de março de 2012

Efemeridades

Houve um tempo em que Freud explicava tudo, Marx era cultuado como um deus e o mundo era bipolar: ou você era comuna ou capitalista, Garantido ou Caprichoso, FLA ou FLU! Pois bem, a psicanálise está há tempos no divã, marxismo não é unanimidade e a terceira via já é uma realidade na política e no sexo! Essas referências (nem sempre um porto alegre), funcionavam como um porto seguro: você sabia o que fazer, quem era e no que acreditar!

Não é que as certezas tenham mudado... a vida útil delas é que se tornou cada vez menor (como atesta a efêmera validade das verdades científicas)... o que era sólido desmancha-se, agora, em liquidez... e o que sempre fora uma experiência perene (amor, casamento, crenças, vínculos empregatício, instituições) continua sendo eterno... mas... só enquanto dura.

É de se perguntar: num mundo tão volátil, quem se resigna a viver uma só vida em mil possíveis, agora que podemos explorar outras identidades com a realidade virtual, agora que podemos escolher nosso sexo, nossa cor e, segundo as promessas da engenharia genética, o design não só do nosso hardware (traços estéticos), mas principalmente do nosso software (imunidade a certas doenças)?

Com um self-service desses, não é à toa que a ansiedade dispara na pole position dos distúrbios do 3º milênio: a questão não é mais escolher algo num mar de possibilidades, mas o tempo necessário para experimentar cada uma dessas; viver de quase tudo um pouco e quase tudo mal; ou como dizia a canção: “melhor viver dez anos a mil a mil anos a dez”!

Também não é à toa que tanta gente diz ser hiperativa, com déficit de atenção anexado: o excesso de informação induz não só ao esquecimento, mas ao desejo de consumir imagens, experiências (virtuais ou não), pessoas, identidades... é como se fosse preciso estar conectado para se sentir vivo e percebido. Aliás, já existe até nome pra isso - fomo (fear of missing out, ou, medo de perder alguma coisa). Pois é, 24h é pouco pra tanta demanda: haja avatares virtuais!

Fica a sensação de que o tempo é curto, de que não se viveu o suficiente, de que o passado foi apenas o avant-première. Parece prevalecer essa noção de que viver é sentir intensamente, e rapidamente, as experiências, o que faz com que privilegiemos a existência em termos de horizontalidade, sem se aprofundar em algo específico, virtualmente absorvendo o mundo por mil janelas. Nesse

cultivo de estados alterados da percepção, serotonina e dopamina são os neurotransmissores da hora... e é preciso correr para se manter em pé!

Apesar de não ter saudade de guerra fria e muito menos de um tempo em que as escolhas eram um até que a morte os separe, confesso que sou nostálgico: sou de um tempo em que as coisas eram feitas pra durar... coisa que certamentenão acontecerá com essa minha teoria!


by: ônix

Ouvi, ontem, que não há nenhum espelho igual à outro, por conta de angulações matemáticas... Isso significa que sempre haverá algum ...