quinta-feira, 24 de julho de 2008

Louca ou não?!?

Não dormi ao certo.
Pensava na paixão. Como disse meu amigo poeta: “essa coisa de dar em doido”. Agora entendo. Sempre soube que não tinha muito juízo e um dia iria, então, sucumbir ao delírio que, suspeitava eu, me espreitava atento por detrás das cortinas da minha consciência.

Era uma estranha convivência. Sem ver, ouvir ou sentir, eu sabia que ela estava ali. Ela, a loucura. Estranha e ao mesmo tempo tão íntima. Achava que ela tinha olhos grandes e pudesse me ver por completo.

Engraçado como em muitos momentos e tive a impressão de vê-la bem de perto, a ponto de quase sentir o seu hálito doce a esquentar meu rosto. Ela me escutava e posso afirmar que ria de mim. Ria do meu nervoso, do meu medo de ser dominada por ela. Essa certeza não me abandonava. Um dia ela iria me devastar. Possuir-me de tal forma que eu não conseguiria mais unir letras nem palavras, compreender frases nem gesto. Nem mesmo distinguir o que era, para mim, certo ou errado.

Posso dizer que vivi bem até hoje. Esse fantasma nem sempre me assombrava. Acho até que, às vezes, ele passeava em outras almas e me deixava calma e tranqüila sem pensar em ser louca ou enlouquecer. Honestamente, não pensava nisso há muito. Até que esse amigo me saiu com essa coisa de que a paixão e a loucura são primas-irmãs. Tão parecidas que mal se poderia distinguir qual era uma e qual era outra. Era conversa de cientista, gente que analisava e dizia entender o que acontece no cérebro das pessoas. Quando ouvi o que me disse, compreendi. A previsão e pressentimentos de menina não eram uma mentira, mas sim delírios inspirados pela loucura da paixão.

Loucura essa que eu pressentia então como a revelação de uma profecia que haveria de se cumprir. Hoje entendo que o que sentia não era medo de enlouquecer, mas sim uma silenciosa e angustiante espera. Não temia o que viria. Desesperava-me a possibilidade que não viesse.

E o sossego de hoje, que nada mais é do que o fato de não pensar em ser louca ou enlouquecer, é somente o alívio por reconhecer que já senti na pele os arroubos da loucura disfarçada de paixão. Confirmei todos os sintomas que previa e descobri outros tantos mais. Ficar sem chão, sem ar, percorrer distâncias grandiosas por curtos momentos de satisfação, ter olhos e coração que não enxergam defeitos, transformar homens em deuses, heróis, amantes. Ter certeza absoluta de ter o poder de voar, tanto com o corpo quanto com a imaginação, de poder controlar com os dedos o passar do tempo e fazer perdurar eternamente um instante de emoção. Sentir que em meu peito pulsa um sol radiante, enorme, gigante e capaz de atingir a tudo e a todos e fazer então, do mundo e da vida, uma explosão de cores, sons, sentidos, a repetição constante de uma sinfonia melodiosa e excitante.

E vivendo descobri que essa loucura, esperada, temida, ansiada e prenunciada, antes sentida e imaginada como o fim de tudo é, na verdade, o começo, o meio, enfim, a própria vida. Percebi que é através dessa loucura que se tecem e se desenrolam os acontecimentos da minha existência. Sou dividida por esse ato. Somos duas, a que havia antes e a que começou a existir depois do instante mágico no qual me perdi e me encontrei, pela primeira vez, com a loucura da paixão. E assim me fiz feliz.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

A vitória nossa de cada dia - II

Temos feito das terapias um vício e da unanimidade, medida

Temos seguido um salvador à cada esquina

Temos até feito dos iguais novos bárbaros

Temos feito dos manuais (todos) bíblia

Temos erigido fortes em plena cidades
e se para longe destas
temos buscado refúgio
temo-nos esquecido
que em toda fuga
também vamos juntos

Temos cultivado flores de plástico
porque de outra forma já não saberíamos morrer

Temos feito do amor uma técnica

Temos feito da tv uma janela zoológica do mundo

Temos exilado palavras e com esse mesmo mundo
mantido imediatos contatos de 1º grau

E temos considerado isso a nossa vitória de cada dia
à cada dia

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Peregrinação

Assim como todo muçulmano deve, ao menos uma vez na vida, visitar Meca, deveríamos, ao menos uma vez ao ano, por um imperativo existencial, peregrinar até os mares, para vislumbrar, naquela superfície imanente-transcendente, a memória das lágrimas de Deus...

Se existe, por garantia constitucional, a liberdade de ir e vir, advogo o inalienável direito natural do dever (de cada um) de mergulhar no mais inescrutável dos elementos...

Se a torre psicanalítica investiga os desvãos da alma e, assim, busca as raízes de nossas obsessões e fobias, por que não perscrutar também essa estranha simbiose com a morada de Netuno?

“Será magia, milagre, miragem... será mistério?

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

O que querem as mulheres

“Afinal, o que querem as mulheres?”... eis o que teria questionado Freud, dando voz ao mistério que a psicologia, a estética e os homens tentam há séculos responder.

E o curioso é que não existe na história do pensamento nenhuma discussão correspondente quanto ao universo masculino, dada à obviedade do que procuram os homens quanto não estão lutando pelo poder.

E do que os homens podem se queixar, uma vez que jamais precisaram queimar peças íntimas para protestar contra qualquer forma de opressão sexista? Se nem o pai da psicanálise explica a natureza ora feérica, ora frágil, meio Psique, meio Afrodite do sexo forte, quem se atreve a responder à pergunta, que não quer calar, sem parecer ridículo, reducionista, alienado, incompetente... ou coisa pior? Além disso, ainda que eu o soubesse, não o diria. Lembram-se do adivinho Tirésias, da mitologia grega, que teria já experimentado a condição de ser homem e mulher? Pois bem, ele ficou cego por castigo divino, justamente por revelar um dos segredos da condição feminina: a mulher sentiria 9 vezes mais prazer que os homens! Já pensou: jamais flagrar outra vez a vizinha do 208? Já nos lembrava Gil que o (super) homem mudou a história por causa da mulher, à qual era a melhor parte dele, a que o fazia viver, posto que o verão seria o apogeu da primavera! Pois é, ministro, se for pra mudar: MULHER PRA PRESIDENTE! (Mas que não seja a Preta Gil!). Já disseram que ninguém nasce mulher, torna-se. E que em tal pedagogia incluem-se, em regime full time, as disciplinas: hormônios (como lidar com o agente da personalidade múltipla); homens (lembrem-se: apenas alguns são de Marte, boa parte é de Plutão); Amor x Desejo (diferenças neurológicas entre os sexos); Trabalho (capacidade lingüística e relações pessoais: o futuro é feminino) etc. Ok, machistas de plantão dirão que estou fazendo lobby subliminar! Mas, companheiros, respondam-me: por quem trabalhamos horas extras? Por quem sofremos tanto? Por quem perdemos noites de sono? Quem é a razão de nossa existência? Para quem nos engravatamos, nos perfumamos e até mesmo...mudamos? Pra mim, todo dia é dia da mulher!!!!!!

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

cinema surreal

sonhei com Tânia Rivera sussurando em meu ouvido: “então, adentramos naquela câmara escura, endereço de um erotismo difuso, onde ressonam pedaços de vida em latente estado de sonho... eis as janelas do indivisível; o corte na dimensão ordinária da vida... esta mesma que se encontra suspensa no alto de um mirante, de onde contemplamos dramas e comédias sem saber divisar suas águas... eis a superfície onírica, o muro e o furo de onde escapam, para onde exilam o fluxo dos desejos represados, o caudaloso rio das pulsões, o céu que nos protege, as imagens em forma de tango, a lente caleidosópica que homogeneíza o caos... o que se confunde com real de cada um, com o então desejo nosso de compartilhar estranhos, no escuro da câmara, um sono em estado de vigília, uma hipnose coletiva, um transe induzido por psicodélicas imagens... eis a gênese, fundamento e dimensão da experiência... a que chamamos cinema...

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Incompletude

Incompletude é nossa grife de origem, precariedade, a marca batismal da espécie homos carentius...

o endereço de nossos desejos é o exílio, onde a oferta daquilo que nos fará plenos é a paisagem com a qual sonhamos...

ali, nesse eldorado onde o id não conhece limites e o superego é persona non grata, não especularemos sobre a essencial questão: ‘se o prazer permanece, permanecerá o prazer?’...

a história da humanidade, de cada um, é o itinerário de suas conquistas, das vontades suprimidas, que um dia, já longínquas, tornar-se-ão ausência... mas ausência será falta?

A meninice que nos escapou? as idades que nos atravessaram, e em que nossa rede de lembranças brotam, agora, feito cintilantes estrelas-do-mar, cavalos-marinhos? o agridoce dos beijos partidos? o gosto de terra molha das perdas? os amores que sempre foram uma espera... de longos dias?

faltas, ausências, desejos!

Por um mecanismo de amnésia seletiva, descobrimos que as ausências são descobertas tardias, e que as faltas são a única onipresença em nossas vidas... ausência é a face dos instantes pretéritos, enquanto a falta, ciência de que as coisas são intempestivas: ou ontem morreram, ainda hesitantes, ao alcance de nossas mãos, ou mesmo resistem, incólumes e uivantes, no onírico horizonte, num cais de sonhos remanescentes... se a falta nos move, a ausência nos demove? Falta não será também ausência daquilo que não se viveu? Uma nostalgia pelo que virá? Sim, “falta são pedaços de nós rompendo os limites do tempo-espaço, fazendo-nos existir no presente e passado”...

O que os budistas responderiam sobre o desejo de não desejar? ‘tudo é dor e toda dor vem do desejo de não sentirmos dor’... Sem dor, como atingir o gozo? Sem gozo, como atingir o equilíbrio? É como a experiência romântica: no amor, ao pedir beijos e climas de suspense, leva-se também, ciúmes e climas de suspense... e tal kit não pode ser obtido separadamente... anulando-se o desejo (quanta abstracione, Dios mio!), automaticamente, a falta desapareceria? Que falta a falta faz... A plenitude da ausência?

Titanicamente, lembro que a gente não quer só comida, mas, diversão, arte, fazer amor, entender o imponderável, sentir o inefável, alcançar o infinito... e cantar sobre nossa incompletude... pra sacar que nosso quadro é um eterno mosaico!

Ouvi, ontem, que não há nenhum espelho igual à outro, por conta de angulações matemáticas... Isso significa que sempre haverá algum ...