Não dormi ao certo.
Pensava na paixão. Como disse meu amigo poeta: “essa coisa de dar em doido”. Agora entendo. Sempre soube que não tinha muito juízo e um dia iria, então, sucumbir ao delírio que, suspeitava eu, me espreitava atento por detrás das cortinas da minha consciência.
Era uma estranha convivência. Sem ver, ouvir ou sentir, eu sabia que ela estava ali. Ela, a loucura. Estranha e ao mesmo tempo tão íntima. Achava que ela tinha olhos grandes e pudesse me ver por completo.
Engraçado como em muitos momentos e tive a impressão de vê-la bem de perto, a ponto de quase sentir o seu hálito doce a esquentar meu rosto. Ela me escutava e posso afirmar que ria de mim. Ria do meu nervoso, do meu medo de ser dominada por ela. Essa certeza não me abandonava. Um dia ela iria me devastar. Possuir-me de tal forma que eu não conseguiria mais unir letras nem palavras, compreender frases nem gesto. Nem mesmo distinguir o que era, para mim, certo ou errado.
Posso dizer que vivi bem até hoje. Esse fantasma nem sempre me assombrava. Acho até que, às vezes, ele passeava em outras almas e me deixava calma e tranqüila sem pensar em ser louca ou enlouquecer. Honestamente, não pensava nisso há muito. Até que esse amigo me saiu com essa coisa de que a paixão e a loucura são primas-irmãs. Tão parecidas que mal se poderia distinguir qual era uma e qual era outra. Era conversa de cientista, gente que analisava e dizia entender o que acontece no cérebro das pessoas. Quando ouvi o que me disse, compreendi. A previsão e pressentimentos de menina não eram uma mentira, mas sim delírios inspirados pela loucura da paixão.
Loucura essa que eu pressentia então como a revelação de uma profecia que haveria de se cumprir. Hoje entendo que o que sentia não era medo de enlouquecer, mas sim uma silenciosa e angustiante espera. Não temia o que viria. Desesperava-me a possibilidade que não viesse.
E o sossego de hoje, que nada mais é do que o fato de não pensar em ser louca ou enlouquecer, é somente o alívio por reconhecer que já senti na pele os arroubos da loucura disfarçada de paixão. Confirmei todos os sintomas que previa e descobri outros tantos mais. Ficar sem chão, sem ar, percorrer distâncias grandiosas por curtos momentos de satisfação, ter olhos e coração que não enxergam defeitos, transformar homens em deuses, heróis, amantes. Ter certeza absoluta de ter o poder de voar, tanto com o corpo quanto com a imaginação, de poder controlar com os dedos o passar do tempo e fazer perdurar eternamente um instante de emoção. Sentir que em meu peito pulsa um sol radiante, enorme, gigante e capaz de atingir a tudo e a todos e fazer então, do mundo e da vida, uma explosão de cores, sons, sentidos, a repetição constante de uma sinfonia melodiosa e excitante.
E vivendo descobri que essa loucura, esperada, temida, ansiada e prenunciada, antes sentida e imaginada como o fim de tudo é, na verdade, o começo, o meio, enfim, a própria vida. Percebi que é através dessa loucura que se tecem e se desenrolam os acontecimentos da minha existência. Sou dividida por esse ato. Somos duas, a que havia antes e a que começou a existir depois do instante mágico no qual me perdi e me encontrei, pela primeira vez, com a loucura da paixão. E assim me fiz feliz.
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