terça-feira, 27 de novembro de 2007

Peregrinação

Assim como todo muçulmano deve, ao menos uma vez na vida, visitar Meca, deveríamos, ao menos uma vez ao ano, por um imperativo existencial, peregrinar até os mares, para vislumbrar, naquela superfície imanente-transcendente, a memória das lágrimas de Deus...

Se existe, por garantia constitucional, a liberdade de ir e vir, advogo o inalienável direito natural do dever (de cada um) de mergulhar no mais inescrutável dos elementos...

Se a torre psicanalítica investiga os desvãos da alma e, assim, busca as raízes de nossas obsessões e fobias, por que não perscrutar também essa estranha simbiose com a morada de Netuno?

“Será magia, milagre, miragem... será mistério?

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

O que querem as mulheres

“Afinal, o que querem as mulheres?”... eis o que teria questionado Freud, dando voz ao mistério que a psicologia, a estética e os homens tentam há séculos responder.

E o curioso é que não existe na história do pensamento nenhuma discussão correspondente quanto ao universo masculino, dada à obviedade do que procuram os homens quanto não estão lutando pelo poder.

E do que os homens podem se queixar, uma vez que jamais precisaram queimar peças íntimas para protestar contra qualquer forma de opressão sexista? Se nem o pai da psicanálise explica a natureza ora feérica, ora frágil, meio Psique, meio Afrodite do sexo forte, quem se atreve a responder à pergunta, que não quer calar, sem parecer ridículo, reducionista, alienado, incompetente... ou coisa pior? Além disso, ainda que eu o soubesse, não o diria. Lembram-se do adivinho Tirésias, da mitologia grega, que teria já experimentado a condição de ser homem e mulher? Pois bem, ele ficou cego por castigo divino, justamente por revelar um dos segredos da condição feminina: a mulher sentiria 9 vezes mais prazer que os homens! Já pensou: jamais flagrar outra vez a vizinha do 208? Já nos lembrava Gil que o (super) homem mudou a história por causa da mulher, à qual era a melhor parte dele, a que o fazia viver, posto que o verão seria o apogeu da primavera! Pois é, ministro, se for pra mudar: MULHER PRA PRESIDENTE! (Mas que não seja a Preta Gil!). Já disseram que ninguém nasce mulher, torna-se. E que em tal pedagogia incluem-se, em regime full time, as disciplinas: hormônios (como lidar com o agente da personalidade múltipla); homens (lembrem-se: apenas alguns são de Marte, boa parte é de Plutão); Amor x Desejo (diferenças neurológicas entre os sexos); Trabalho (capacidade lingüística e relações pessoais: o futuro é feminino) etc. Ok, machistas de plantão dirão que estou fazendo lobby subliminar! Mas, companheiros, respondam-me: por quem trabalhamos horas extras? Por quem sofremos tanto? Por quem perdemos noites de sono? Quem é a razão de nossa existência? Para quem nos engravatamos, nos perfumamos e até mesmo...mudamos? Pra mim, todo dia é dia da mulher!!!!!!

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

cinema surreal

sonhei com Tânia Rivera sussurando em meu ouvido: “então, adentramos naquela câmara escura, endereço de um erotismo difuso, onde ressonam pedaços de vida em latente estado de sonho... eis as janelas do indivisível; o corte na dimensão ordinária da vida... esta mesma que se encontra suspensa no alto de um mirante, de onde contemplamos dramas e comédias sem saber divisar suas águas... eis a superfície onírica, o muro e o furo de onde escapam, para onde exilam o fluxo dos desejos represados, o caudaloso rio das pulsões, o céu que nos protege, as imagens em forma de tango, a lente caleidosópica que homogeneíza o caos... o que se confunde com real de cada um, com o então desejo nosso de compartilhar estranhos, no escuro da câmara, um sono em estado de vigília, uma hipnose coletiva, um transe induzido por psicodélicas imagens... eis a gênese, fundamento e dimensão da experiência... a que chamamos cinema...

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Incompletude

Incompletude é nossa grife de origem, precariedade, a marca batismal da espécie homos carentius...

o endereço de nossos desejos é o exílio, onde a oferta daquilo que nos fará plenos é a paisagem com a qual sonhamos...

ali, nesse eldorado onde o id não conhece limites e o superego é persona non grata, não especularemos sobre a essencial questão: ‘se o prazer permanece, permanecerá o prazer?’...

a história da humanidade, de cada um, é o itinerário de suas conquistas, das vontades suprimidas, que um dia, já longínquas, tornar-se-ão ausência... mas ausência será falta?

A meninice que nos escapou? as idades que nos atravessaram, e em que nossa rede de lembranças brotam, agora, feito cintilantes estrelas-do-mar, cavalos-marinhos? o agridoce dos beijos partidos? o gosto de terra molha das perdas? os amores que sempre foram uma espera... de longos dias?

faltas, ausências, desejos!

Por um mecanismo de amnésia seletiva, descobrimos que as ausências são descobertas tardias, e que as faltas são a única onipresença em nossas vidas... ausência é a face dos instantes pretéritos, enquanto a falta, ciência de que as coisas são intempestivas: ou ontem morreram, ainda hesitantes, ao alcance de nossas mãos, ou mesmo resistem, incólumes e uivantes, no onírico horizonte, num cais de sonhos remanescentes... se a falta nos move, a ausência nos demove? Falta não será também ausência daquilo que não se viveu? Uma nostalgia pelo que virá? Sim, “falta são pedaços de nós rompendo os limites do tempo-espaço, fazendo-nos existir no presente e passado”...

O que os budistas responderiam sobre o desejo de não desejar? ‘tudo é dor e toda dor vem do desejo de não sentirmos dor’... Sem dor, como atingir o gozo? Sem gozo, como atingir o equilíbrio? É como a experiência romântica: no amor, ao pedir beijos e climas de suspense, leva-se também, ciúmes e climas de suspense... e tal kit não pode ser obtido separadamente... anulando-se o desejo (quanta abstracione, Dios mio!), automaticamente, a falta desapareceria? Que falta a falta faz... A plenitude da ausência?

Titanicamente, lembro que a gente não quer só comida, mas, diversão, arte, fazer amor, entender o imponderável, sentir o inefável, alcançar o infinito... e cantar sobre nossa incompletude... pra sacar que nosso quadro é um eterno mosaico!

domingo, 18 de novembro de 2007

Bebemos, cantamos e só restou... Fantasia

E se, de repente
A gente não sentisse
A dor que a gente finge
E sente
Se, de repente
A gente distraísse
O ferro do suplício
Ao som de uma canção
Então, eu te convidaria
Pra uma fantasia
Do meu violão

Canta, canta uma esperança
Canta, canta uma alegria
Canta mais
Revirando a noite
Revelando o dia
Noite e dia, noite e dia
Canta a canção do homem
Canta a canção da vida
Canta mais
Trabalhando a terra
Entornando o vinho
Canta, canta, canta, canta
Canta a canção do gozo
Canta a canção da graça
Canta mais
Preparando a tinta
Enfeitando a praça
Canta, canta, canta, canta
Canta a canção de glória
Canta a santa melodia
Canta mais
Revirando a noite
Revelando o dia
Noite e dia, noite e dia

Chico Buarque/1978


sábado, 17 de novembro de 2007

A noite e a falta

A noite...

Falamos da fala.
Da falta e do desejo... não, não da falta de desejo, mas da falta, que é um desejo.
Busca insadecida por esse algo que não sabemos.
Da falta, do desejo, e da ausência.
Ausência, desejo aprisionado, estacionado.
Desejo remetido a algo que não está.
Pedaços de nós rompendo os limitess tempo-espaço, fazendo-nos existir no presente e passado.
Ausência que nos acalenta com sentimentos confortáveis. Traz o dissabor da perda implícita, mas também do "algo bom"... algo bom que sempre se torna melhor com o passar do tempo e com a distância.

Ouvi, ontem, que não há nenhum espelho igual à outro, por conta de angulações matemáticas... Isso significa que sempre haverá algum ...