sábado, 17 de novembro de 2007

A noite e a falta

A noite...

Falamos da fala.
Da falta e do desejo... não, não da falta de desejo, mas da falta, que é um desejo.
Busca insadecida por esse algo que não sabemos.
Da falta, do desejo, e da ausência.
Ausência, desejo aprisionado, estacionado.
Desejo remetido a algo que não está.
Pedaços de nós rompendo os limitess tempo-espaço, fazendo-nos existir no presente e passado.
Ausência que nos acalenta com sentimentos confortáveis. Traz o dissabor da perda implícita, mas também do "algo bom"... algo bom que sempre se torna melhor com o passar do tempo e com a distância.

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Concertos e desconcertos interiores

Essa terça é a sensação da vida parada no ar na perspectiva de um Dorival Caymmi... então, nos sentimos como aqueles países que carecem de uma revolução para mexer nas estruturas... devíamos "trocá-la por duas sextas à tarde"...quem sabe!... seria inconstitucional? fugir do trabalho, arremessar o chefe pela janela: isso seria uma espécie de reposição hormonal, não?

Sabe esses “concertos interiores” que parecem nunca afinar? Essa sinfonia de vozes discordantes, mais retalhada que o PT?

Vc não pressente existir alguma coisa autônoma que nos permite dizer: meu corpo, minha mente, minha alma? Como se fôssemos a soma disso... ou uma essência inescrutável?

A arte só seria possível devido a essas semitonações? Qual a idade do tempo? O sabor do vento? O marco zero do universo?

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Eram dois anjos a flanar pela avenida, a inventariar cada aresta da vida, objeto de sua especulação eterna. Testemunhas da criação, consciências do tempo em seu devir, eram os anjos os olhos de Deus. Lá embaixo a cidade, a arena feérica dos sabores, o palco dos amantes, a fugaz morada da alegria; logo ali, o reino das promessas e dos beijos partidos, a senda das ilusões.

Repara, Luc, nós, anjos a pairar solenemente sobre os ombros dessa cidade, nós que pelo sono dos séculos já vislumbramos o infinito, porém, o que sabemos acerca da fina matéria da vida? Nós que apenas somos insones ouvidos da consciência humana, fiéis antenas a sorver o licor das angústias, e o vinho dos desejos; nós, a sombra que não se anuncia, estamos tão perto, tão longe da pedra que nos fascina: a vida. Hoje, em meus vislumbres pelos cantos da cidade, vi um velho em sua nova infância, a valsa de um bêbado, homens na janela a resgatar memórias do que não viveram; vi alguns confessarem em seus diários aquilo que silenciaram em sua consciência, e mais adiante, um jovem atraído pela tentação de voar e perder, assim, o peso do seu passado... e do seu futuro.

Lub, deves ter percebido enquanto o vento a conduzia: quantos não vivem como sonâmbulos quando despertos e acordados quando sonham?; quantos não buscam o absinto dos estados alterados da percepção?; tomam o amor como um elixir, panacéia, codinome para a salvação: se apaixonam e convertem o ser amado em bússola, cruz e altar, e as cavalares doses com que alimentam sua frenética busca não encontra paralelo nem mesmo em nosso mundo de sombras.

Lud, quantos não percebem que desejam mais o desejo que propriamente o ser de carne e dúvidas? Como será, me diga, como será sentir o gosto do outro? Quantos sabores ele ocultará? Como será estar sempre na colorida lembrança de alguém? Beber o oceano, queimar os lábios com chocolate, agasalhar um corpo? Como será queimar-se nos primeiros instantes da aurora e banhar-se de lua? Que sabor haverá na respiração da criança que dorme, apenas perceber o silêncio da chuva que cai? Os pés nus sobre o orvalho da montanha, o vento no labirinto das cidades, os olhos a nos perceber, a nos desejar, a nos convidar para desbravar a cordilheira das esquinas, como será?

Diga-me: como será?

domingo, 11 de novembro de 2007

Desaconselhe-se

Trinta e uns anos: nessa idade o espírito já adquiriu aquela consistência rara dos bons vinhos, aquele humor de quem sabe rir de si mesmo, aquela certa desconfiança de que a nossa vida não é a única a ser uma versão moderna de uma tragédia grega.

Com a autoridade de quem já tem precedente nessa idade pelo fato de já tê-la vivido, antecipo algumas descobertas dessa experiência sui generis:

1 - Não seja realista, que é o pessimismo crônico. Viva a vida como ela poderia ser: sim, qualquer semelhança com a realidade terá sido mera coincidência.
2 - Seja, antes de tudo, espontânea ainda que à custa de muito ensaio; e principalmente no amor - certamente, a mais inexata das ciências, cuja única cláusula pétrea é a ausência de leis.

3 - Não tenha problemas, cultive problemáticas :
- seja cética quanto ao ceticismo

- caso sofra por algum motivo, seja legítima: que seja por razões empíricas
- cultive, sempre, uma dúvida cartesiana em relação aos objetos (principalmente quando estes últimos forem sujeitos)

4 - Viaje para o interior: mais barato e sem contra-indicação ...

5 - Cultive o hábito de ter:
- um amor platônico ( e o transforme em aristotélico!)
- um segredo impublicável ( pelo menos em parte, senão de que valeria ter um? )
- um tempo agendado... para o acaso
- admiradores e admirados

6 - E sempre que puder, roube, roube bastante flores do campo e as ofereça a terceiros sem segundas intenções: esse crime certamente compensará...

7 - Em se tratando de sexo, prefira o clássico ao moderno.

8 - Enfim, descarte as receitas de vida como esta e crie as suas próprias, ainda que com o único intuito de contra elas se rebelar...

E lembre-se: o que é bom para a alma, é bom para a pele...

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Cena 3

cho que a discrição faz parte do nosso show! Fico imaginando o que alguém como vc faz num consultório!

- nem só de culpas vive o homem!

- Um complexo de Édipo mal resolvido ou um transtorno obsessivo-compulsivo?

- Impossível guardar segredos hoje em dia, não? Na verdade, tento superar uma grande frustração: se Alexandre, o grande, conquistou todo o mundo conhecido em sua época, aos 32 anos, imagine eu, um pouco mais velho, que ainda não conquistei o que preciso, como não me sinto? Suponho que vc tenha ambições mais modestas que a dele!

- conquistar meu mundo e tudo o que nele caiba, talvez seja algo mais ambicioso que o sonho de Alexandre!

- Se eu lhe dissesse que este também é meu sonho de consumo, vc acreditaria?

- Vidente, porteiro, frustrado e agora plagiador?

- conhece algum lugar onde eu poderia apresentar um currículo desse nível?

- ouvi dizer que estão recrutando figurantes para uma cena de um filme-catástrofe... não exigem experiência!

- eu sabia que tinha alma de artista! Pena não ser meu gênero predileto! E nem o seu!

- acho que meu gênero é rir hoje dos meus dramas mexicanos, achar romântico o patético chapliniano... sabe, a memória se encarrega de transformar as experiências em gêneros distintos do original...

- o problema é quando isso se torna um seriado!

- não, o problema é quando vc se torna um anti-herói!

- há um certo charme em ser apenas sucesso de crítica, e não de público!

- talvez eu seja um clássico e ainda não tenha percebido!

- os gênios são sempre incompreendidos em sua própria época, não?

- o futuro pra mim já seria tarde demais!!! Só reparei agora: o pianista se foi, a música acabou! Tenho uma fantasia cinematográfica: sempre quis pedir ao pianista: ‘play, Sam, playAs time goes by’!

- “as coisas fundamentais se aplicam com o passar do tempo”, como cantaria o Sam...

- “ luar e canções de amor nunca serão obsoletos”...

- “sempre haverá Paris!”, não se esqueça... assim como sempre haverá um homem que tocará o coração da mulher que ama!

- só se pode amar aquilo que se conhece!

- nesse caso, acho que temos um bom motivo agora para um segundo encontro!

Cena 2: Café do 10º andar

- Que tal um capuccino? Vc parece ter ficado muito tempo no frio!

- por que não? Para quem esperava por um bourbon, um café serve ao menos para despertar!

- sim, mas, cuidado, realidade em excesso faz mal pra pele!

- tem razão! E todos temos direito a um vício! O seu deve ser o capuccino!

- isso não lhe parece condizente com a minha condição de porteiro?

- e por isso há o agravante de ser uma daquelas pessoas com hábitos noturnos!

- por opção, e não por condição. Certas coisas se revelam melhor na ausência de muita luz.

- nesse caso, acho que vc não se adaptaria a certas regiões ibéricas, onde o sol só se põe às 22h.

- bem, se a natureza foi sábia me impedindo de nascer por lá, quanto a vc, ela foi bem cortês: pelo seus olhos castelhanos, eu diria que vc é descendente de espanhóis; pelo seu andar, é bailarina; e pelo modo como toca o enfeite da mesa, artista plástica!

- e vc deve ser um detetive precocemente aposentado!

- além de porteiro nas horas vagas, não se esqueça! Na verdade, não estou interessado no número de sua RG, se seu nome consta no Cadastro de Inadimplentes ou se vc já se submeteu a cirurgias estéticas!

- acho que nessas circunstâncias posso abrir uma exceção e confessar meus pecados: sou de escorpião, pratico arvorismo... mas estou longe de ser vegetariana

- que coincidência: sou taurino, escrevo poemas no outono e me encontro em plena carreira solo!

- em termos profissionais? - cardiológicos!

- deve ser um esporte interessante: este de realizar duetos em noites de inverno, não?

- nem sempre os tons afinam. Aliás, essa música ao fundo não é o Chico?

- Ele está onde menos se espera, não é?.... como se fosse uma onipresença... um oráculo...

“o amor não tem pressa/ ele pode esperar em silêncio/ num fundo de armário/ na posta-restante/ milênios, milênios/ no ar / e quem sabe, então o Rio será alguma cidade submersa/ os escafandristas virão explorar sua casa/ seu quarto, suas coisas/ sua alma, desvãos/ sábios em vão/ tentarão decifrar/ o eco de antigas palavras/ fragmentos de cartas, poemas/ mentiras, retratos/ vestígios de estranha civilização...”

- sim, é como um presságio...

“Não se afobe, não/ que nada é pra já/ amores serão sempre amáveis/ futuros amantes, quiçá se amarão sem saber/ com o amor que eu um dia deixei pra você”

Silêncios.

- já que vc é versado em Chico, deve conhecer esta:

“te perdôo/ por fazeres mil perguntas/ que em vidas que andam juntas/ ninguém faz/ te perdôo/ por pedires perdão/ por me amares demais/ te perdôo por ligares/ pra todos os lugares/ de onde eu vim/ te perdôo por ergueres a mão/por bateres em mim/ te perdôo/ quando anseio pelo instante de sair/ e rodar exuberante/ e me perder de ti/ te perdôo/ por quereres me ver/ aprendendo a mentir (te mentir, te mentir)”

- a temática da culpa não é meu forte, aliás, meu terapeuta me costuma dizer que não deveríamos cultivar culpas, no máximo, admitir um dolo eventual... prefiro aquela outra canção:

“me ensina a não andar com os pés no chão/ para sempre é sempre por um triz/ diz quantos desastres tem na minha mão/ diz se é perigoso a gente ser feliz”...

Ela desvia o olhar e o assunto.

- Isso aqui está parecendo um festival da mpb!

- nesse caso deveríamos cobrar couvert; o que me diz?

- acho que a discrição faz parte do nosso show! Fico imaginando o que alguém como vc faz num consultório!

- nem só de culpas vive o homem!

- Um complexo de Édipo mal resolvido ou um transtorno obsessivo-compulsivo?

- Impossível guardar segredos hoje em dia, não? Na verdade, tento superar uma grande frustração: se Alexandre, o grande, conquistou todo o mundo conhecido em sua época, aos 32 anos, imagine eu, um pouco mais velho, que ainda não conquistei o que preciso, como não me sinto? Suponho que vc tenha ambições mais modestas que a dele!

- conquistar meu mundo e tudo o que nele caiba, talvez seja algo mais ambicioso que o sonho de Alexandre!

- Se eu lhe dissesse que este também é meu sonho de consumo, vc acreditaria?

- Vidente, porteiro, frustrado e agora plagiador?

- conhece algum lugar onde eu poderia apresentar um currículo desse nível?

- ouvi dizer que estão recrutando figurantes para uma cena de um filme-catástrofe... não exigem experiência!

- eu sabia que tinha alma de artista! Pena não ser meu gênero predileto! E nem o seu!

- acho que meu gênero é rir hoje dos meus dramas mexicanos, achar romântico o patético chapliniano... sabe, a memória se encarrega de transformar as experiências em gêneros distintos do original...

- o problema é quando isso se torna um seriado!

- não, o problema é quando vc se torna um anti-herói!

- há um certo charme em ser apenas sucesso de crítica, e não de público!

- talvez eu seja um clássico e ainda não tenha percebido!

- os gênios são sempre incompreendidos em sua própria época, não?

- o futuro pra mim já seria tarde demais!!! Só reparei agora: o pianista se foi, a música acabou! Tenho uma fantasia cinematográfica: sempre quis pedir ao pianista: ‘play, Sam, play As time goes by’! - “as coisas fundamentais se aplicam com o passar do tempo”, como cantaria o Sam... - “ luar e canções de amor nunca serão obsoletos”... - “sempre haverá Paris!”, não se esqueça... assim como sempre haverá um homem que tocará o coração da mulher que ama!

- só se pode amar aquilo que se conhece!

- nesse caso, acho que temos um bom motivo agora para um segundo encontro!

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Mise en scène


Cena 1: No terraço de um prédio, por volta das 21h, uma mulher parece ansiar pela chegada de alguém. Um cigarro após outro, sua aflição vai cedendo lugar a uma resignação amarga. Um homem que a observa há 1 hora, aproxima-se e pergunta:

- Parece que quem vc estava esperando não errou a hora, mas o dia!

Ela sem virar a cabeça, responde-lhe:

- Além da vidência, vc tem alguma outra qualidade?

- Bem, costumo resgatar garotas solitárias em noites estreladas

Meio ácida, volta-se pare ele e emenda:

- Não me diga... isso é algum tipo de vocação filantrópica?

- Só tento fazer desse mundo um lugar melhor!

Ele puxa um cigarro:

- Vc tem fogo?

- Acho que sobrou alguma coisa...

Ela lhe acende o cigarro e responde:

- “Dizem que fumar mata lentamente!

- Não tenho pressa de morrer!”

- Acho que vidência é contagiosa: sou capaz de apostar que vc é o porteiro daqui! Toda noite espera que uma situação dessas ocorra... então,

troca o seu uniforme pelo terno que comprou em 18 prestações e entra em cena para viver o clímax do seu dia!

- Garota, ninguém pode negar que vc não tem talento para a ficção!

- Meu pai sempre dizia que as ilusões têm vida curta!

- Vc me parece bem real

Sorridente e meio cínica, ela diz:

- Melhor não confiar na luz das estrelas!

- Sabe, tenho o grave defeito de não seguir conselhos de estranhas!

- Pois vc me parece bem familiar como uma ilusão!

- Posso durar mais que uma vida curta!

- Todas as ilusões dizem isso!

- Bem, podemos continuar nosso exercício de futurologia no Café do 10º andar?

Ouvi, ontem, que não há nenhum espelho igual à outro, por conta de angulações matemáticas... Isso significa que sempre haverá algum ...