terça-feira, 23 de outubro de 2007

A arte de nossos delírios

a arte de nossos delírios é sugestiva, não descritiva;
sua lente é mais verossímil que o real; não cabem óculos ao que teus sentidos filtraram... nem regulagens ao que disseste...
continua a derramar vinho sobre os verbos, até ali, então, solitários em seu pudor etimológico... rumo à lavra das palavras que, em estado de poesia já demandam alforria!

Creia-me, artesã impressionista, o quadro que pintaste é mais surreal, agora, que me fizeste lembrar das coisas que não vi: pierrôs modernizados em meio ao flerte de flores de saias, sem falar nos homens primitivos a nos instilar atavismos!
Como um demiurgo, tu implantaste com tuas miragens novas memórias em mim... retocaste o passado como uma pedagoga do olhar!!!

Sim, estivemos no meio de um barco a atravessar a noite... e agora, que o falaste, lembrei-me: éramos nós a paisagem!!! Será esse o mistério: converter-nos o olhar para o insuspeito dos dias?

Não ousem responder... quem o poderia?!!!

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Alma acizentada


O que fazer nessas dias que amanhecem cinza, mas não por fora, por conta das chuvas e das mudanças climáticas, mas sim por dentro, por conta da euforia roubada, da angústia acumulada, da esperança desgastada?

Trinta e uns...

Trinta e uns anos: nessa idade o espírito já adquiriu aquela consistência rara dos bons vinhos, aquele humor de quem sabe rir de si mesmo, aquela certa desconfiança de que a nossa vida não é a única a ser uma versão moderna de uma tragédia grega. Com a autoridade de quem já tem precedente nessa idade pelo fato de já tê-la vivido, antecipo algumas descobertas dessa experiência sui generis:

1- Não seja realista, que é o pessimismo crônico.
Viva a vida como ela poderia ser: sim, qualquer semelhança com a realidade terá sido mera coincidência.

2- Seja, antes de tudo, espontânea ainda que à custa de muito ensaio;
e principalmente no amor - certamente, a mais inexata das ciências, cuja única cláusula pétrea é a ausência de leis.

3- Não tenha problemas, cultive problemáticas :
  • seja cética quanto ao ceticismo
  • caso sofra por algum motivo, seja legítima: que seja por razões empíricas
  • cultive, sempre, uma dúvida cartesiana em relação aos objetos (principalmente quando estes últimos forem sujeitos)

4- Viaje para o interior: mais barato e sem contra-indicação ...

5- Cultive o hábito de ter:
  • um amor platônico ( e o transforme em aristotélico!)
  • um segredo impublicável ( pelo menos em parte, senão de que valeria ter um? )
  • um tempo agendado... para o acaso
  • admiradores e admirados

6- E sempre que puder, roube, roube bastante flores do campo e as ofereça a terceiros sem segundas intenções: esse crime certamente compensará...

7- Em se tratando de sexo, prefira o clássico ao moderno.

8- Enfim, descarte as receitas de vida como esta e crie as suas próprias, ainda que com o único intuito de contra elas se rebelar...

9 – E lembre-se: o que é bom para a alma, é bom para a pele...

sábado, 20 de outubro de 2007

A descida do barco

Então, iniciou-se a descida ao rio, que suspenso no 1º andar se achava: eis o prelúdio das inundações que nos levariam às cheias das artes alquímicas: o tablado segredava um alçapão; por trás, uma varanda era atravessada por um rio invisível; uma casa nascia, ali, das entranhas de outra, à nossa frente; o tempo regredia; o espaço se dilatava.
Uma batida na porta... era o passado a rondar, ainda, o coração ainda moço daquela moça... De imediato, o passado fez-se presente... nos olhos em remorsos de quem regressara, nos olhos nostálgicos de quem nunca partira... E só havia um pedido: voltar a se esconder... ali, sob o chão, fugir para um ontem distante; recriar aquele espaço sob os pés, fora do tempo, além dos ideais, aquém da coragem... cálido espaço, útero da casa, grávido de memórias... árido espaço, vazante das promessas, fotografia de silêncios eloqüentes.

Eis que chega a tempestade sob forma humana. Arrancam palavras. Açoitam lembranças. Nem um santo imóvel os demove. O mundo é pequeno demais para uma fuga; a consciência, estreita em demasia para saltar coragem do porão; o amor, largo “como um rio sem margens...”.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Devaneios, se não no título, no texto...

Tenha-se 16, 27, 38, 58, 72, 183 anos, queremos o essencial, um sentido, uma plenitude, garantias, mares e amores...

Quem consegue paz nessa vida, quem está satisfeito com o que é, faz, sente, pensa? Não teremos resposta, mas continuaremos seguindo estrelas, fazendo música, tomando vinho, desejando a lua, buscando Deus...

Dores sofisticadas também são básicas... Já dizia Vinícius: os bares estão cheios de homens vazios... sim, as igrejas estão repletas, todo dia nasce uma terapia, os shoppings também são templos, o mundo virtual parece mais real, precisamos de tango, de álcool, de um beijo que transcenda palavras, de uma criança, de rock na veia, de um sentido pra tudo isso... ‘ se eu tivesse mais alma pra dar, eu daria: isso pra mim, é viver’...

E que viver seja a medida da extravagância!!!!!!!!

Pulso navegável



“Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim.
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho.
Que momentos há em que suponho
Seres um milagre criado só para mim”.

Ei, vc já sentiu nostalgia do mar?
O que falar desse poema?

Deixai ele entrar na veia... pra quem tem alma de artista, é anticientista, não é assertivo nem articulado, vive de errância em errância, vive di-versos dispersos, tem mais angústias que Riobaldo, é assaltado por Diadorins, pra quem leva o sertão dentro de si, e ‘se bebesse o mar, encheria o que tem de fundo”, pra quem não consegue afinar os concertos interiores: receito os mares!!!

Tenha-se 16, 27, 38, 58, 72, 183 anos, queremos o essencial, um sentido, uma plenitude, garantias, mares e amores...

Quem consegue paz nessa vida, quem está satisfeito com o que é, faz, sente, pensa?
Não teremos resposta, mas continuaremos seguindo estrelas, fazendo música, tomando vinho, desejando a lua, buscando Deus...

Dores sofisticadas também são básicas... Já dizia Vinícius: os bares estão cheios de homens vazios... sim, as igrejas estão repletas, todo dia nasce uma terapia, os shoppings também são templos, o mundo virtual parece mais real, precisamos de tango, de álcool, de um beijo que transcenda palavras, de uma criança, de rock na veia, de um sentido pra tudo isso... ‘ se eu tivesse mais alma pra dar, eu daria: isso pra mim, é viver’...

E que viver seja a medida da extravagância!!!!!!!!

terça-feira, 16 de outubro de 2007

O ideal que buscamos

Ideal seria colecionar ficantes?
Ser comum ter raros instantes?

Ideal seria ser “casado no natal
e solteiro no carnaval”?

Ideal seria tomar as coincidências como premonição
E os reveses como lição?
Ideal seria flagrar a aurora boreal?
Ter crise de auto-suficiência?
Aplicar a lei da gravidade aos estados oníricos?

Ideal seria tomar a vida como um passe de mágica?
Descrever sem receio a parábola da órbita do desejo?
Mensurar dos astros em desalinho a rota do destino?

Ideal seria então
ter imaginite crônica e fantasite aguda
como condições normais de temperatura e pressão?

Ideal seria fazer cálculos aproximados
Dos riscos de um coração apaixonado?

Ideal é navegar em Delírios & Devaneios...

Ouvi, ontem, que não há nenhum espelho igual à outro, por conta de angulações matemáticas... Isso significa que sempre haverá algum ...