terça-feira, 24 de julho de 2012



Ouvi, ontem, que não há nenhum espelho igual à outro, por conta de angulações matemáticas...

Isso significa que sempre haverá algum reflexo, em algum lugar, com uma versão mais hard, soft ou onírica de nós, uma espécie de redenção estética... entonces, o problema está no que se vê... não no que se é?

O que é sólido desmancha-se em miragem... aliás, apaixonar-se é mirar-se no mais suspeito dos espelhos... que superfície ou tela poderá conosco? Dizem que inspiração é estar pleno de Deus... coisas como a êxtase divino, o transe amoroso, o orgasmo, a criação artística derivariam dessa transcendência... nossa memória, sempre seletiva, tem nessas experiências a própria definição de vida ... em qual agenda se registra o essencial?

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Teoria da Vida


Os mais radicais questionamentos têm o sabor de certas perguntas infantis: ambos nos deixam sem respostas, embora já tenhamos algumas prontas. Um desses exemplos gira em torno da discussão ”quando a vida tem início?”. Não existem respostas fáceis, principalmente quando existem 10 teorias conflitantes:

Genética – a vida só se inicia quando o espermatozóide fertiliza o óvulo, gerando um indivíduo com código genético distinto

Embriológica – na 3ª semana de gestação, qdo o embrião adquire individualidade; antes ele pode se dividir

Neurológica – no início das atividades das ondas cerebrais, lá pela 8ª semana

Nidação – fixação do embrião no útero - 40º dia

Ecológica – feto pode viver fora do útero; pulmões precisam estar prontos - 25º semana

Fisiológica – indivíduo nasce e se torna independente da mãe, com seus sistemas circulatório e respiratório

Metabólica – vida como processo contínuo, não faz sentido discutir início

Antropológica – quando se dá auto-reconhecimento, isto é, nos primeiros meses de vida

Romântica – a vida começa quando você conhece alguém que justifique sua existência

Poética – a vida só começa aos 40, o passado apenas é o avant-première e o futuro, a deixa do happy end

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Patologias

Se chegamos atrasados somos relapsos, se nos antecipamos, ansiosos; e se, pontuais, neuróticos...

Se muito trabalhamos, workaholics; se pouco, preguiçosos;

Se nos debruçamos sobre o imponderável, lunáticos; se nos preocupamos com a sobrevivência, materialistas;

Se, por demais, discutimos a relação, inseguros; se a negligenciamos, esquivos; se muito disponíveis, anulados

Se romantizamos o cotidiano, piegas; se cotidianizamos o romance, frios;

Se tomamos coincidências como premonição, supersticiosos; se as racionalizamos, cegos

Se nos apaixonamos, incautos e ingênuos; se nos retrancamos, covardes

Se envelhecemos, falam-nos do passado; e se rejuvenescemos, também

sexta-feira, 23 de março de 2012

Efemeridades

Houve um tempo em que Freud explicava tudo, Marx era cultuado como um deus e o mundo era bipolar: ou você era comuna ou capitalista, Garantido ou Caprichoso, FLA ou FLU! Pois bem, a psicanálise está há tempos no divã, marxismo não é unanimidade e a terceira via já é uma realidade na política e no sexo! Essas referências (nem sempre um porto alegre), funcionavam como um porto seguro: você sabia o que fazer, quem era e no que acreditar!

Não é que as certezas tenham mudado... a vida útil delas é que se tornou cada vez menor (como atesta a efêmera validade das verdades científicas)... o que era sólido desmancha-se, agora, em liquidez... e o que sempre fora uma experiência perene (amor, casamento, crenças, vínculos empregatício, instituições) continua sendo eterno... mas... só enquanto dura.

É de se perguntar: num mundo tão volátil, quem se resigna a viver uma só vida em mil possíveis, agora que podemos explorar outras identidades com a realidade virtual, agora que podemos escolher nosso sexo, nossa cor e, segundo as promessas da engenharia genética, o design não só do nosso hardware (traços estéticos), mas principalmente do nosso software (imunidade a certas doenças)?

Com um self-service desses, não é à toa que a ansiedade dispara na pole position dos distúrbios do 3º milênio: a questão não é mais escolher algo num mar de possibilidades, mas o tempo necessário para experimentar cada uma dessas; viver de quase tudo um pouco e quase tudo mal; ou como dizia a canção: “melhor viver dez anos a mil a mil anos a dez”!

Também não é à toa que tanta gente diz ser hiperativa, com déficit de atenção anexado: o excesso de informação induz não só ao esquecimento, mas ao desejo de consumir imagens, experiências (virtuais ou não), pessoas, identidades... é como se fosse preciso estar conectado para se sentir vivo e percebido. Aliás, já existe até nome pra isso - fomo (fear of missing out, ou, medo de perder alguma coisa). Pois é, 24h é pouco pra tanta demanda: haja avatares virtuais!

Fica a sensação de que o tempo é curto, de que não se viveu o suficiente, de que o passado foi apenas o avant-première. Parece prevalecer essa noção de que viver é sentir intensamente, e rapidamente, as experiências, o que faz com que privilegiemos a existência em termos de horizontalidade, sem se aprofundar em algo específico, virtualmente absorvendo o mundo por mil janelas. Nesse

cultivo de estados alterados da percepção, serotonina e dopamina são os neurotransmissores da hora... e é preciso correr para se manter em pé!

Apesar de não ter saudade de guerra fria e muito menos de um tempo em que as escolhas eram um até que a morte os separe, confesso que sou nostálgico: sou de um tempo em que as coisas eram feitas pra durar... coisa que certamentenão acontecerá com essa minha teoria!


by: ônix

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Eternizando

Sentir o gosto do outro

estar na colorida lembrança de alguém

beber o oceano

queimar-se dos primeiros instantes da aurora

banhar-se de lua

da respiração da criança que dorme

do silêncio da chuva que cai

os pés nus sobre a montanha

o vento no labirinto das cidades

a desbravar a cordilheira das esquinas

o orvalho da nova infância

tudo o que é delicado

é eterno

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Reflexos da alma



Ouvi, ontem, que não há nenhum espelho igual à outro, por conta de angulações matemáticas...

Isso significa que sempre haverá algum reflexo, em algum lugar, com uma versão mais hard, soft ou onírica de nós, uma espécie de redenção estética... entonces, o problema está no que se vê... não no que se é?

O que é sólido desmancha-se em miragem... aliás, apaixonar-se é mirar-se no mais suspeito dos espelhos... que superfície ou tela poderá conosco?


Dizem que inspiração é estar pleno de Deus... coisas como a êxtase divino, o transe amoroso, o orgasmo, a criação artística derivariam dessa transcendência... nossa memória, sempre seletiva, tem nessas experiências a própria definição de vida ... em qual agenda se registra o essencial?


TEXTO: ÔNIX

domingo, 11 de setembro de 2011

Mistérios

MISTÉRIOS = coisas que conheço mas desconheço, e sobre as quais tenho pouco (ou nenhum) domínio... Que causam dúvidas e estranheza, mas mesmo assim despertam um fascínio que não permite que nos desvencilhemos delas

Essencialismo


Se os antigos nos legaram o epicurismo, o estoicismo, o ceticismo... e os modernos nos seduziram com o romantismo, o surrealismo, o modernismo; minha contribuição a este século (ainda criança) será o essencialismo...


Senso de raridade: eis o que o tempo nos cultiva, o nome daquilo que em nós decanta, a diferença entre vida bruta e vida líquida, o que nos vai tornando mais bossa nova e menos rock’n’roll...


Seja solteiro ou casado, Carlito ou Marilyn Monroe, Garantido ou Caprichoso, alienígena ou terráqueo, tal senso se instala em lento download...


Essencialismo é o que as mãos não retiveram, o que os olhos não viram, o que os lábios guardaram... a busca em cada porto alegre de um porto seguro, ter sensibilidade parabólica para captar momentos hiperbólicos (ainda que líquidos) e que desembocaram em entregas sólidas (ainda que efêmeras)




Essencialismo é sacar que

Tempo vai-se tornando mais valioso que dinheiro

Garantias, um seguro com prazo de validade

E que intimidade requer palavras escolhidas


Essencialismo é perceber que

Pra inspiração não há aspirina

Nem pra coração partido, anestesia

Só vingam mesmo as promissórias

das promessas vencidas


As escolhas continuam sem avalistas

Assim como os sonhos... para os quais não cabem analistas

Quanto a declarações... solamente pedidos de vista


Essencialismo é resistência lírica à realidade prática

É ver literatura em matemática

É ter crise de auto-suficiência


É tomar coincidências como premonição

É cansar-se de palavras e sublimar-se em música

É preparar outras vidas

Antes de tudo: espera... uma espera de longos dias

É ciência de que as coisas são intempestivas:

ou ontem morreram, ainda hesitantes,

ao alcance de nossas mãos

ou mesmo resistem, incólumes e uivantes,

no onírico horizonte

num cais de sonhos remanescentes

“o resto é mar..., ..., ..., ...”


TEXTO: Ônix, Louco (pelo anonimato)

IMAGEM: Essencialismo - Ismael Nery

domingo, 12 de abril de 2009

Da natureza das pedras


Por 37 anos – e por diferentes motivos – ele acordara sempre antes do sol.

Se, ainda criança, poucas horas de sono bastavam-lhe, ao crescer, a insônia parecia ter-se casado bem com seus precoces deveres: rumar diariamente para a longínqua cidade, ao fim das madrugadas, para garantir o sustento da mãe e da irmã.

Pedreiro, menos por escolha que por destino, conhecia a fundo a ciência de seu ofício há mais de três décadas: afinal, parte de uma cidade nascera de suas mãos.

Após essa eternidade de horas, semanas, meses e anos de tijolo, areia e cal, o fato é que um temporal castigara aquele final de dia, o que alterou a rota do pedreiro, que deveria tomar um outro ônibus na estação, pois havia perdido o seu.

Três quarteirões e duas esquinas depois, a chuva engrossara, forçando-o a se abrigar no Museu, naquele instante tão ermo e solitário quanto ele.
Fez a leitura das nuvens, prognosticou a duração do dilúvio e resolver fazer hora ali dentro. Pareceu-lhe um labirinto com infinitas passagens e salas a se multiplicar.
Parecia perdido.
Sentou-se junto a uma escultura de Hermes e ficou imóvel por longos minutos.
- Também és uma estátua?
O pedreiro sobressaltou-se, percorrendo os olhos pela sala vazia e inquirindo pela identidade daquela voz... o que só foi respondido pelo eco de sua própria.
- Jamais havia te mirado antes. És um estranho aqui - continuou a voz.
O pedreiro petrificou-se. A fonte da voz não era humana.
- Agora, estás a me admirar... e pelo motivo errado!
O pedreiro circundou a estátua, investigou cada detalhe e deteve-se diante dela, mudo e fascinado.
- Movimenta-te com harmonia!
Quisera eu poder fazer o mesmo.
E, no entanto, sempre estão a pagar para me ver estática.
O pedreiro assentiu e arriscou, ainda surpreso:
- Talvez imaginem como você era antes de ser o que é. Como alguém conseguiu trabalhar o mármore com tanta perfeição!
- Ora! Eu sempre existi. O escultor apenas retirou os excessos de pedra.
- E quanto tempo faz isso? - Vinte e cinco séculos. O pedreiro assombrou-se mais uma vez e emendou:
- Quanta história você não deve ter visto!
- É exatamente o contrário: miram-me por ser a história...
- Quantos lugares você não deve ter conhecido!
- Meu destino é rodar eternamente o mundo.
- E quantas pessoas também...
- Reis e rainhas já estiveram aos meus pés.
- Sem falar que você nunca vai morrer!
- Sim, percorro os séculos insone... eu que só queria dormir... eis meu fado, meu fardo!
- Mas como? Quem não desejaria ser como você?
- Acaso, desejarias trocar de lugar comigo?
- Mas porque você viveria a vida de alguém que só conhece as pedras e que nunca saiu de onde nasceu?
- Mas eu também sou feito de pedra... desta matéria fiz minha casa... eu sonho com o movimento...
- Mas movimento é o que só você conhece! Está hoje aqui, mas amanhã e depois e depois, sempre em algum lugar distante, longe!
- Uma vida breve... um quintal, trabalhar a pedra até morrer: isso soa a ti como uma prisão?
- O que você sabe sobre não ter escolha? Não ser percebido? Sobre não dormir? Não distinguir a vida do trabalho? Eu devolvo a você a proposta: trocaria de lugar comigo?
- Ora, jovem humano, não pensaria duas vezes! Após um silêncio prolongado, a escultura prosseguiu:
- Se almejas largar tua sorte e tornar-te como eu, aproxima-te!
Ele se aproximou.
- Agora, toca-me os dedos. Ele a tocou. Então, a carne se fez pedra. E a pedra, enfim, se fizera carne.




terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Receitinha para bem viver!

Como manter-se jovem

1. Deixe fora os números que não são essenciais.Isto inclui a idade, o peso e a altura.Deixe que os médicos se preocupem com isso. Afinal, é para isso que lhes paga!.

2. Mantenha só os amigos divertidos. Os depressivos puxam para baixo.(Lembre-se disto se for um desses depressivos!)

3. Aprenda sempre:Aprenda mais sobre computadores, artes, jardinagem, o que quer que seja. Não deixe que o cérebro se torne preguiçoso.'Uma mente preguiçosa é trabalho do diabo.' E o nome do diabo é Alzheimer!

4. Aprecie as pequenas coisas

5. Ria muitas vezes, durante muito tempo e alto. Ria até lhe faltar o ar.E se tiver um amigo que o faça rir, passe muito e muito tempo com ele / ela!

6. Quando as lágrimas apareceremAguente, sofra e ultrapasse.A única pessoa que fica conosco toda a nossa vida somos nós mesmos.VIVA enquanto estiver vivo.

7. Rodeie-se das coisas que ama:Quer seja a família, animais, plantas, hobbies, o que quer que seja.O seu lar é o seu refugio.

8. Tome cuidado com a sua saúde:Se é boa, mantenha-a.Se é instável, melhore-a.Se não a consegue melhorar, procure ajuda.

9. Não faça viagens de culpa. Faça uma viagem ao centro comercial, até a um país diferente, mas NÃO para onde estiver a culpa

10. Diga às pessoas que ama que as ama a cada oportunidade.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Paisagens


Há dias em que penso ter a idade das estrelas;
outros em que sinto que ontem nasci.

Há coisas que ficaram velhas, pelo caminho, como rosas outonais, que morreram e para as quais eu também morri...
as embalo como lembranças sem nostalgia...

Há coisas permanentes: a mudança, a crença de poder fazer durar tudo que nos dá prazer de existir...
a luta contra o tempo e os desejos adversos;
a vida sempre aquém, o gozo sempre onde além...
as cativo como dádivas intempestivas...

Há novidades também: o corpo lentamente a trair a idade interior, a urgência de as mãos reterem o essencial e a fatura das decisões de 10 anos atrás.

Há a perplexidade da defasagem entre o que busquei e o que agora desejo (acolho os fantasmas de mim)...
a fugacidade de coisas que se anunciaram perenes...
quando a eternidade só pertence às estrelas...

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Mínimas

Não existem garantias
Apenas a vida a longo prazo
Ou a perder de vista
Pra inspiração não há aspirina
Nem pra coração partido, anestesia

Só vingam mesmo as promissórias das promessas vencidas
Pra escolhas não há avalista
Pra sonhos não cabem analistas
Pra declarações, solamente pedidos de vista
O maior vício será a rotina?
Saudade se mata ou vive de ressurgir das cinzas?
Vida, me diga: qual será a saída?

Teoria do Caos

E se Colombo tivesse naufragado
E Barbosa, defendido?
Se o sonho não tivesse acabado”
E nem Eva, mordido?
Se o átomo não fosse fissurado
E Descartes não tivesse duvidado?
E se Lutero fosse analfabeto
E Freud não fosse médico?
Se Judas não tivesse traído
E Sócrates houvesse abjurado?
E se Deus não tivesse morrido
Nem o rock nascido?
Qual teria sido seu destino?

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Curriculum Vitae Duvidoso



Sabe esses dias que vc acorda com ergofobia?
Sabe essas horas que a melhor saída é ir embora?
Sabe essas dores que a gente cultiva como flores?
Sabe esses papos tão cheios de atos falhos?

Sabe esses encontros com sabor de avant-première?
Sabe esses beijos que te sugam as palavras?
Sabe esses olhares telepáticos?
Sabe aqueles toques orgiásticos?

Sabe essa coisa de se comprazer na dor?
Sabe ser bossa nova com alguém rock´n´roll?
Sabe aquela solidão de grand canyon?
Sabe aquele silêncio digno dos templos?

Sabe ser Carlito a azarar Marilyn Monroe?
Sabe estar em Amsterdã e ser do interior?
Sabe esse coração na opção stand by?
Sabe quando o corpo te trai?
Sabe não ter vaga e sobrar fila?

Sabe essas promessas com jeito de campanha?
Sabe ter vocação pra acrobacia E equilibrar dores, contas e arritmias?
Sabe de algum prozac pra desgosto? Sabe se valium vale pra agosto?
Sabe se consideram especialidade ser um especialista em generalidades?
Sabe?


Destino em desalinho


Todo mundo tem uma história pra contar
Um destino pra cumprir
Uma estrada pra atravessar

Todo mundo carece de uma bússola
Um guia ou um mapa
Que teimam em apontar
para o ”nada, nada, nada
Do que se esperava encontrar”

Castelo se herda
Beijo se rouba
Futuro se infinita
Passado se edita

Idades se alcançam
Experiência não se terceiriza
Amar é sina
Amor, loteria

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Estrada de contradições...


De quantos trailers se compõe nosso dia? Se a gente acorda protagonista não há garantia de que não vá dormir coadjuvante... é possível viver sem algum tipo de embriaguez?

Qual nosso lugar no mundo?, quando, como e onde não mais nos trair? Não mais deixar o tempo fugir?... toda felicidade é urgente!

Se somos mesmo um clássico caso de personalidade múltipla, quem nos apontará a fronteira entre a boa e a má escolha? Ao que, a quem renunciaremos se o bom senso for o nosso norte? como se medir a vocação se cada um é uma novidade em potencial?

Sim, temos contas para pagar, mas precisamos, antes, sentir a brisa dos mares do sul: questão de sobrevivência, baby! Temos que comprar um 'apertamento', conquistar nossa independência, nem que seja às margens do Ipiranga, mas... esse horizonte me convida todo dia a conhecê-lo, e vocês sabem: a vida é agora, como ensina o Visa!!!

Sem esquecer que temos que plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho! Temos que nos dedicar ao nosso curso, nosso corpo, nosso espírito, nossos discos, nosso trabalho, nossos familiares... mas sem cúmplices, a memória logo se dissipará!

E assim vamos vivendo em carreira solo, com eventuais duetos! Temos que nascer malabaristas: equilibrar contas, dores e alegrias... e a gente que só queria ser como todo mundo: normal! Só não nos avisaram que esta categoria ou toma remédio de tarja preta ou deixa os psicólogos malucos!!!

A gente só queria alguém pra entender que coerência rima com ciência... e exata, pois no campo das humanas é mais ou menos como no Olimpo repleto de deuses: virtudes públicas, vícios privados (não vá confundir com o contrário!), e cenas explícitas de ambiguidade.

A vida é larga e é um desperdício de tempo, hormônio e de histórias saborosas como as de Rubem Alves viver teorizando sobre o que ela poderia ser!

E eu que não imaginara que, à medida que o tempo passasse, as dúvidas cresceriam em razão geométrica, ao passo que as certezas, se desenvolveriam em razão aritmética (e muitas quedariam ante o real por inanição!).

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Nem só de dores ou flores pode viver o homem


Como diria Vinícius: “é melhor ser alegre que ser triste/ alegria é a melhor coisa que existe/ é assim uma forma de oração/ mas pra fazer um samba com beleza/ é preciso um bocado de tristeza/ por que senão não se faz um samba não!”...

Como se diz: se ficamos submersos por muito tempo num estado de espírito, não conseguimos apreciá-lo, pois a identidade emerge da percepção da diferença...

É no escuro que buscamos iluminação. Mas luz em demasia cega. Lágrimas são saudosas de risos e vice-versa. Aliás, equilíbrio é uma constante negociação de pesos... Ceder a um deles é cair... Frustrações são pequenas mortes que nos fortalecem. Alegrias esfuziantes se esfumam... pela sua própria natureza... caso contrário, ficaríamos dopados com a felicidade e, sem problemas, quem tocaria esse mundo?

O pólo positivo das sensações pode ser paralisante... E sem melancolia, culpa, remorso, tristeza, nosso senso moral seria anulado, seríamos um oceano de id, escravos dos desejos e todo conhecimento seria empirismo puro... filosofias não existiriam, apenas o hedonismo, o pragmatismo e a axé music ... Sem melancolia seríamos menos solidários, haveria menos compaixão (que é sofrer junto), e não curtiríamos os versos de Neruda:

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe".
O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a e por vezes ela também me amou.
Em noites como esta tive-a em meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.
Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.
Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.
Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.
Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta tive-a em meus braços,
a minha alma não se contenta por havê-la perdido.
Embora seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.

Aristóteles já reparava que os homens de exceção na política, na filosofia e nas artes padeciam de melancolia. Na Idade Média, a chamada apatia, tristeza profunda ou o torpor eram conhecidos como ‘o demônio do meio-dia’.E os monges tinham de se virar para não ceder à tentação de fugirem às suas missões, em pleno deserto, em plena solidão...

Os românticos do século XIX, por sua vez, cultuavam o ar blasé, o sentimento de tédio, de desencanto como formas valorizadas de subjetividade. Atualmente, existem as drogas da felicidade que eliminam o menor resquício de tristeza... serotonina e dopamina são os neurotransmissores da hora... e é preciso correr para se manter em pé: no cultivo de estados alterados da percepção, via rave, via ecstasy, via trance; na virtualidade, absorvendo o mundo por mil janelas. Como diria a Cecília: “não sou alegre, nem triste, sou poeta”

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Não-saber infinito...


O sol tá pestanejando... e eu aqui, navegando em mim... comadre, como dizia toda gente: todo mundo tem uma história pra contar, um destino pra cumprir, uma estrada pra atravessar...

todo mundo padece de uma bússola que teima em apontar para “o nada, nada, nada do que se esperava encontrar”... já reparou? coisa triste é sede em frente ao mar, saudade é a vazante das dores da tarde a nos escoltar; um caminhante da estrada não sabe que amor dá na entressafra e que há um salvador em cada esquina pra fome da alma?

Toda estrela alumia o esquecido: o que falta nessa vida é prévio aviso, quando ela é somente o sono a deitar seu calor nas folhas de outono; quem sabe o destino não é confidente do acaso... não sabe morrer quem cultiva flores de plástico... fé é quando a gente espera o futuro chegar, pra depois lamentar, mais à frente, que nada mais é... como era antigamente...

O latifúndio de cada um não será, também, um sertão? Tem mais vazio que cheio, tem mais saudade e espera que cotidiano, tem mais horizonte que parede e cada nuvem é um cais, por onde vôo... tem dia que ”se eu bebesse o mar, encheria o que eu tenho de fundo”

... parece que saí de casa só com o corpo... comadre, tirei esse final de tarde pra lembrar quem eu sou, “por que acontece, por vezes, da gente não ter tempo de ser a gente”; até me esqueci como ser eu era fácil... eu já amei como quem teme a um deus, eu já fiz versos como quem confidencia blasfêmias, eu já desejei gente que eu não queria, eu já senti saudades precoces das coisas... enquanto aconteciam, eu já tive medo de não saber o que querer por querer demais, eu já roubei beijos (e devolvi), já fui indiferente a quem não me queria, já fui ridículo, já me senti o máximo (que é uma maneira elegante de ser ridículo), já fiz encantamento... de poesia pra me repararem, já fui pleno brincando com criança, ou de ser uma; já quis ir pra tão longe até que o horizonte ficasse perto; já ensaiei cantadas... pra depois apelar pro improviso... será que a gente é o conjunto das decisões, circunstâncias, genética e dos dados de Deus?

A gente se olha no espelho e vê o resultado da soma. Tem dia que eu só reparo nas subtrações, no que se dividiu, ficou na promessa... ou pra outra encarnação... mas tem dia que eu me multiplico, como numa diáspora: tanta gente que eu poderia ser, tanto lugar que podia ser de minha nascença, tantos pais que podiam ser meus, tanto beijo que não dei, as meninas que não conheci, os colégios que não estudei, os mares que não fizeram nenhuma “moldura atlântica” da minha história... eu sou uma possibilidade... e como não tem jeito pra saber se havia outra melhor, creio que vingou a melhor delas...


por: ônix

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Falo sem falar...

Falo o dialeto intimista de quem usa palavras como tática para se (re)velar
Falo às vezes com o falsete dos tímidos que usam a extroversão para se calar
Falo de tudo um pouco, do pouco que interessa quase nada
Falo consciente de me trair ao traduzir-me com palavras


Falo com os olhos, com o toque e com a roupa
Falo com o silêncio, a ausência
com o que entra e sai da boca.
E quase sempre fala-se mais com olhares que palavras...


Ouvi, ontem, que não há nenhum espelho igual à outro, por conta de angulações matemáticas... Isso significa que sempre haverá algum ...