Trinta e uns anos: nessa idade o espírito já adquiriu aquela consistência rara dos bons vinhos, aquele humor de quem sabe rir de si mesmo, aquela certa desconfiança de que a nossa vida não é a única a ser uma versão moderna de uma tragédia grega. Com a autoridade de quem já tem precedente nessa idade pelo fato de já tê-la vivido, antecipo algumas descobertas dessa experiência sui generis:
1- Não seja realista, que é o pessimismo crônico.
Viva a vida como ela poderia ser: sim, qualquer semelhança com a realidade terá sido mera coincidência.
2- Seja, antes de tudo, espontânea ainda que à custa de muito ensaio;
e principalmente no amor - certamente, a mais inexata das ciências, cuja única cláusula pétrea é a ausência de leis.
3- Não tenha problemas, cultive problemáticas :
- seja cética quanto ao ceticismo
- caso sofra por algum motivo, seja legítima: que seja por razões empíricas
- cultive, sempre, uma dúvida cartesiana em relação aos objetos (principalmente quando estes últimos forem sujeitos)
4- Viaje para o interior: mais barato e sem contra-indicação ...
5- Cultive o hábito de ter:
- um amor platônico ( e o transforme em aristotélico!)
- um segredo impublicável ( pelo menos em parte, senão de que valeria ter um? )
- um tempo agendado... para o acaso
- admiradores e admirados
6- E sempre que puder, roube, roube bastante flores do campo e as ofereça a terceiros sem segundas intenções: esse crime certamente compensará...
7- Em se tratando de sexo, prefira o clássico ao moderno.
8- Enfim, descarte as receitas de vida como esta e crie as suas próprias, ainda que com o único intuito de contra elas se rebelar...
9 – E lembre-se: o que é bom para a alma, é bom para a pele...