
Como diria Vinícius: “é melhor ser alegre que ser triste/ alegria é a melhor coisa que existe/ é assim uma forma de oração/ mas pra fazer um samba com beleza/ é preciso um bocado de tristeza/ por que senão não se faz um samba não!”...
Como se diz: se ficamos submersos por muito tempo num estado de espírito, não conseguimos apreciá-lo, pois a identidade emerge da percepção da diferença...
É no escuro que buscamos iluminação. Mas luz em demasia cega. Lágrimas são saudosas de risos e vice-versa. Aliás, equilíbrio é uma constante negociação de pesos... Ceder a um deles é cair... Frustrações são pequenas mortes que nos fortalecem. Alegrias esfuziantes se esfumam... pela sua própria natureza... caso contrário, ficaríamos dopados com a felicidade e, sem problemas, quem tocaria esse mundo?
O pólo positivo das sensações pode ser paralisante... E sem melancolia, culpa, remorso, tristeza, nosso senso moral seria anulado, seríamos um oceano de id, escravos dos desejos e todo conhecimento seria empirismo puro... filosofias não existiriam, apenas o hedonismo, o pragmatismo e a axé music ... Sem melancolia seríamos menos solidários, haveria menos compaixão (que é sofrer junto), e não curtiríamos os versos de Neruda:
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe".
O vento da noite gira no céu e canta.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a e por vezes ela também me amou.
Em noites como esta tive-a em meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.
Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.
Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.
Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.
Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.
Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, ela não está comigo.
A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.
Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.
De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.
Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.
Porque em noites como esta tive-a em meus braços,
a minha alma não se contenta por havê-la perdido.
Embora seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.
Aristóteles já reparava que os homens de exceção na política, na filosofia e nas artes padeciam de melancolia. Na Idade Média, a chamada apatia, tristeza profunda ou o torpor eram conhecidos como ‘o demônio do meio-dia’.E os monges tinham de se virar para não ceder à tentação de fugirem às suas missões, em pleno deserto, em plena solidão...
Os românticos do século XIX, por sua vez, cultuavam o ar blasé, o sentimento de tédio, de desencanto como formas valorizadas de subjetividade. Atualmente, existem as drogas da felicidade que eliminam o menor resquício de tristeza... serotonina e dopamina são os neurotransmissores da hora... e é preciso correr para se manter em pé: no cultivo de estados alterados da percepção, via rave, via ecstasy, via trance; na virtualidade, absorvendo o mundo por mil janelas. Como diria a Cecília: “não sou alegre, nem triste, sou poeta”