quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Destino em desalinho


Todo mundo tem uma história pra contar
Um destino pra cumprir
Uma estrada pra atravessar

Todo mundo carece de uma bússola
Um guia ou um mapa
Que teimam em apontar
para o ”nada, nada, nada
Do que se esperava encontrar”

Castelo se herda
Beijo se rouba
Futuro se infinita
Passado se edita

Idades se alcançam
Experiência não se terceiriza
Amar é sina
Amor, loteria

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Estrada de contradições...


De quantos trailers se compõe nosso dia? Se a gente acorda protagonista não há garantia de que não vá dormir coadjuvante... é possível viver sem algum tipo de embriaguez?

Qual nosso lugar no mundo?, quando, como e onde não mais nos trair? Não mais deixar o tempo fugir?... toda felicidade é urgente!

Se somos mesmo um clássico caso de personalidade múltipla, quem nos apontará a fronteira entre a boa e a má escolha? Ao que, a quem renunciaremos se o bom senso for o nosso norte? como se medir a vocação se cada um é uma novidade em potencial?

Sim, temos contas para pagar, mas precisamos, antes, sentir a brisa dos mares do sul: questão de sobrevivência, baby! Temos que comprar um 'apertamento', conquistar nossa independência, nem que seja às margens do Ipiranga, mas... esse horizonte me convida todo dia a conhecê-lo, e vocês sabem: a vida é agora, como ensina o Visa!!!

Sem esquecer que temos que plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho! Temos que nos dedicar ao nosso curso, nosso corpo, nosso espírito, nossos discos, nosso trabalho, nossos familiares... mas sem cúmplices, a memória logo se dissipará!

E assim vamos vivendo em carreira solo, com eventuais duetos! Temos que nascer malabaristas: equilibrar contas, dores e alegrias... e a gente que só queria ser como todo mundo: normal! Só não nos avisaram que esta categoria ou toma remédio de tarja preta ou deixa os psicólogos malucos!!!

A gente só queria alguém pra entender que coerência rima com ciência... e exata, pois no campo das humanas é mais ou menos como no Olimpo repleto de deuses: virtudes públicas, vícios privados (não vá confundir com o contrário!), e cenas explícitas de ambiguidade.

A vida é larga e é um desperdício de tempo, hormônio e de histórias saborosas como as de Rubem Alves viver teorizando sobre o que ela poderia ser!

E eu que não imaginara que, à medida que o tempo passasse, as dúvidas cresceriam em razão geométrica, ao passo que as certezas, se desenvolveriam em razão aritmética (e muitas quedariam ante o real por inanição!).

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Nem só de dores ou flores pode viver o homem


Como diria Vinícius: “é melhor ser alegre que ser triste/ alegria é a melhor coisa que existe/ é assim uma forma de oração/ mas pra fazer um samba com beleza/ é preciso um bocado de tristeza/ por que senão não se faz um samba não!”...

Como se diz: se ficamos submersos por muito tempo num estado de espírito, não conseguimos apreciá-lo, pois a identidade emerge da percepção da diferença...

É no escuro que buscamos iluminação. Mas luz em demasia cega. Lágrimas são saudosas de risos e vice-versa. Aliás, equilíbrio é uma constante negociação de pesos... Ceder a um deles é cair... Frustrações são pequenas mortes que nos fortalecem. Alegrias esfuziantes se esfumam... pela sua própria natureza... caso contrário, ficaríamos dopados com a felicidade e, sem problemas, quem tocaria esse mundo?

O pólo positivo das sensações pode ser paralisante... E sem melancolia, culpa, remorso, tristeza, nosso senso moral seria anulado, seríamos um oceano de id, escravos dos desejos e todo conhecimento seria empirismo puro... filosofias não existiriam, apenas o hedonismo, o pragmatismo e a axé music ... Sem melancolia seríamos menos solidários, haveria menos compaixão (que é sofrer junto), e não curtiríamos os versos de Neruda:

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe".
O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a e por vezes ela também me amou.
Em noites como esta tive-a em meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.
Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.
Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.
Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.
Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta tive-a em meus braços,
a minha alma não se contenta por havê-la perdido.
Embora seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.

Aristóteles já reparava que os homens de exceção na política, na filosofia e nas artes padeciam de melancolia. Na Idade Média, a chamada apatia, tristeza profunda ou o torpor eram conhecidos como ‘o demônio do meio-dia’.E os monges tinham de se virar para não ceder à tentação de fugirem às suas missões, em pleno deserto, em plena solidão...

Os românticos do século XIX, por sua vez, cultuavam o ar blasé, o sentimento de tédio, de desencanto como formas valorizadas de subjetividade. Atualmente, existem as drogas da felicidade que eliminam o menor resquício de tristeza... serotonina e dopamina são os neurotransmissores da hora... e é preciso correr para se manter em pé: no cultivo de estados alterados da percepção, via rave, via ecstasy, via trance; na virtualidade, absorvendo o mundo por mil janelas. Como diria a Cecília: “não sou alegre, nem triste, sou poeta”

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Não-saber infinito...


O sol tá pestanejando... e eu aqui, navegando em mim... comadre, como dizia toda gente: todo mundo tem uma história pra contar, um destino pra cumprir, uma estrada pra atravessar...

todo mundo padece de uma bússola que teima em apontar para “o nada, nada, nada do que se esperava encontrar”... já reparou? coisa triste é sede em frente ao mar, saudade é a vazante das dores da tarde a nos escoltar; um caminhante da estrada não sabe que amor dá na entressafra e que há um salvador em cada esquina pra fome da alma?

Toda estrela alumia o esquecido: o que falta nessa vida é prévio aviso, quando ela é somente o sono a deitar seu calor nas folhas de outono; quem sabe o destino não é confidente do acaso... não sabe morrer quem cultiva flores de plástico... fé é quando a gente espera o futuro chegar, pra depois lamentar, mais à frente, que nada mais é... como era antigamente...

O latifúndio de cada um não será, também, um sertão? Tem mais vazio que cheio, tem mais saudade e espera que cotidiano, tem mais horizonte que parede e cada nuvem é um cais, por onde vôo... tem dia que ”se eu bebesse o mar, encheria o que eu tenho de fundo”

... parece que saí de casa só com o corpo... comadre, tirei esse final de tarde pra lembrar quem eu sou, “por que acontece, por vezes, da gente não ter tempo de ser a gente”; até me esqueci como ser eu era fácil... eu já amei como quem teme a um deus, eu já fiz versos como quem confidencia blasfêmias, eu já desejei gente que eu não queria, eu já senti saudades precoces das coisas... enquanto aconteciam, eu já tive medo de não saber o que querer por querer demais, eu já roubei beijos (e devolvi), já fui indiferente a quem não me queria, já fui ridículo, já me senti o máximo (que é uma maneira elegante de ser ridículo), já fiz encantamento... de poesia pra me repararem, já fui pleno brincando com criança, ou de ser uma; já quis ir pra tão longe até que o horizonte ficasse perto; já ensaiei cantadas... pra depois apelar pro improviso... será que a gente é o conjunto das decisões, circunstâncias, genética e dos dados de Deus?

A gente se olha no espelho e vê o resultado da soma. Tem dia que eu só reparo nas subtrações, no que se dividiu, ficou na promessa... ou pra outra encarnação... mas tem dia que eu me multiplico, como numa diáspora: tanta gente que eu poderia ser, tanto lugar que podia ser de minha nascença, tantos pais que podiam ser meus, tanto beijo que não dei, as meninas que não conheci, os colégios que não estudei, os mares que não fizeram nenhuma “moldura atlântica” da minha história... eu sou uma possibilidade... e como não tem jeito pra saber se havia outra melhor, creio que vingou a melhor delas...


por: ônix

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Falo sem falar...

Falo o dialeto intimista de quem usa palavras como tática para se (re)velar
Falo às vezes com o falsete dos tímidos que usam a extroversão para se calar
Falo de tudo um pouco, do pouco que interessa quase nada
Falo consciente de me trair ao traduzir-me com palavras


Falo com os olhos, com o toque e com a roupa
Falo com o silêncio, a ausência
com o que entra e sai da boca.
E quase sempre fala-se mais com olhares que palavras...


quinta-feira, 24 de julho de 2008

Louca ou não?!?

Não dormi ao certo.
Pensava na paixão. Como disse meu amigo poeta: “essa coisa de dar em doido”. Agora entendo. Sempre soube que não tinha muito juízo e um dia iria, então, sucumbir ao delírio que, suspeitava eu, me espreitava atento por detrás das cortinas da minha consciência.

Era uma estranha convivência. Sem ver, ouvir ou sentir, eu sabia que ela estava ali. Ela, a loucura. Estranha e ao mesmo tempo tão íntima. Achava que ela tinha olhos grandes e pudesse me ver por completo.

Engraçado como em muitos momentos e tive a impressão de vê-la bem de perto, a ponto de quase sentir o seu hálito doce a esquentar meu rosto. Ela me escutava e posso afirmar que ria de mim. Ria do meu nervoso, do meu medo de ser dominada por ela. Essa certeza não me abandonava. Um dia ela iria me devastar. Possuir-me de tal forma que eu não conseguiria mais unir letras nem palavras, compreender frases nem gesto. Nem mesmo distinguir o que era, para mim, certo ou errado.

Posso dizer que vivi bem até hoje. Esse fantasma nem sempre me assombrava. Acho até que, às vezes, ele passeava em outras almas e me deixava calma e tranqüila sem pensar em ser louca ou enlouquecer. Honestamente, não pensava nisso há muito. Até que esse amigo me saiu com essa coisa de que a paixão e a loucura são primas-irmãs. Tão parecidas que mal se poderia distinguir qual era uma e qual era outra. Era conversa de cientista, gente que analisava e dizia entender o que acontece no cérebro das pessoas. Quando ouvi o que me disse, compreendi. A previsão e pressentimentos de menina não eram uma mentira, mas sim delírios inspirados pela loucura da paixão.

Loucura essa que eu pressentia então como a revelação de uma profecia que haveria de se cumprir. Hoje entendo que o que sentia não era medo de enlouquecer, mas sim uma silenciosa e angustiante espera. Não temia o que viria. Desesperava-me a possibilidade que não viesse.

E o sossego de hoje, que nada mais é do que o fato de não pensar em ser louca ou enlouquecer, é somente o alívio por reconhecer que já senti na pele os arroubos da loucura disfarçada de paixão. Confirmei todos os sintomas que previa e descobri outros tantos mais. Ficar sem chão, sem ar, percorrer distâncias grandiosas por curtos momentos de satisfação, ter olhos e coração que não enxergam defeitos, transformar homens em deuses, heróis, amantes. Ter certeza absoluta de ter o poder de voar, tanto com o corpo quanto com a imaginação, de poder controlar com os dedos o passar do tempo e fazer perdurar eternamente um instante de emoção. Sentir que em meu peito pulsa um sol radiante, enorme, gigante e capaz de atingir a tudo e a todos e fazer então, do mundo e da vida, uma explosão de cores, sons, sentidos, a repetição constante de uma sinfonia melodiosa e excitante.

E vivendo descobri que essa loucura, esperada, temida, ansiada e prenunciada, antes sentida e imaginada como o fim de tudo é, na verdade, o começo, o meio, enfim, a própria vida. Percebi que é através dessa loucura que se tecem e se desenrolam os acontecimentos da minha existência. Sou dividida por esse ato. Somos duas, a que havia antes e a que começou a existir depois do instante mágico no qual me perdi e me encontrei, pela primeira vez, com a loucura da paixão. E assim me fiz feliz.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

A vitória nossa de cada dia - II

Temos feito das terapias um vício e da unanimidade, medida

Temos seguido um salvador à cada esquina

Temos até feito dos iguais novos bárbaros

Temos feito dos manuais (todos) bíblia

Temos erigido fortes em plena cidades
e se para longe destas
temos buscado refúgio
temo-nos esquecido
que em toda fuga
também vamos juntos

Temos cultivado flores de plástico
porque de outra forma já não saberíamos morrer

Temos feito do amor uma técnica

Temos feito da tv uma janela zoológica do mundo

Temos exilado palavras e com esse mesmo mundo
mantido imediatos contatos de 1º grau

E temos considerado isso a nossa vitória de cada dia
à cada dia

Ouvi, ontem, que não há nenhum espelho igual à outro, por conta de angulações matemáticas... Isso significa que sempre haverá algum ...