Por 37 anos – e por diferentes motivos – ele acordara sempre antes do sol.
Se, ainda criança, poucas horas de sono bastavam-lhe, ao crescer, a insônia parecia ter-se casado bem com seus precoces deveres: rumar diariamente para a longínqua cidade, ao fim das madrugadas, para garantir o sustento da mãe e da irmã.
Pedreiro, menos por escolha que por destino, conhecia a fundo a ciência de seu ofício há mais de três décadas: afinal, parte de uma cidade nascera de suas mãos.
Após essa eternidade de horas, semanas, meses e anos de tijolo, areia e cal, o fato é que um temporal castigara aquele final de dia, o que alterou a rota do pedreiro, que deveria tomar um outro ônibus na estação, pois havia perdido o seu.
Três quarteirões e duas esquinas depois, a chuva engrossara, forçando-o a se abrigar no Museu, naquele instante tão ermo e solitário quanto ele.
Fez a leitura das nuvens, prognosticou a duração do dilúvio e resolver fazer hora ali dentro. Pareceu-lhe um labirinto com infinitas passagens e salas a se multiplicar.
Parecia perdido.
Sentou-se junto a uma escultura de Hermes e ficou imóvel por longos minutos.
- Também és uma estátua?
O pedreiro sobressaltou-se, percorrendo os olhos pela sala vazia e inquirindo pela identidade daquela voz... o que só foi respondido pelo eco de sua própria.
- Jamais havia te mirado antes. És um estranho aqui - continuou a voz.
O pedreiro petrificou-se. A fonte da voz não era humana.
- Agora, estás a me admirar... e pelo motivo errado!
O pedreiro circundou a estátua, investigou cada detalhe e deteve-se diante dela, mudo e fascinado.
- Movimenta-te com harmonia!
Quisera eu poder fazer o mesmo.
E, no entanto, sempre estão a pagar para me ver estática.
O pedreiro assentiu e arriscou, ainda surpreso:
- Talvez imaginem como você era antes de ser o que é. Como alguém conseguiu trabalhar o mármore com tanta perfeição!
- Ora! Eu sempre existi. O escultor apenas retirou os excessos de pedra.
- E quanto tempo faz isso? - Vinte e cinco séculos. O pedreiro assombrou-se mais uma vez e emendou:
- Quanta história você não deve ter visto!
- É exatamente o contrário: miram-me por ser a história...
- Quantos lugares você não deve ter conhecido!
- Meu destino é rodar eternamente o mundo.
- E quantas pessoas também...
- Reis e rainhas já estiveram aos meus pés.
- Sem falar que você nunca vai morrer!
- Sim, percorro os séculos insone... eu que só queria dormir... eis meu fado, meu fardo!
- Mas como? Quem não desejaria ser como você?
- Acaso, desejarias trocar de lugar comigo?
- Mas porque você viveria a vida de alguém que só conhece as pedras e que nunca saiu de onde nasceu?
- Mas eu também sou feito de pedra... desta matéria fiz minha casa... eu sonho com o movimento...
- Mas movimento é o que só você conhece! Está hoje aqui, mas amanhã e depois e depois, sempre em algum lugar distante, longe!
- Uma vida breve... um quintal, trabalhar a pedra até morrer: isso soa a ti como uma prisão?
- O que você sabe sobre não ter escolha? Não ser percebido? Sobre não dormir? Não distinguir a vida do trabalho? Eu devolvo a você a proposta: trocaria de lugar comigo?
- Ora, jovem humano, não pensaria duas vezes! Após um silêncio prolongado, a escultura prosseguiu:
- Se almejas largar tua sorte e tornar-te como eu, aproxima-te!
Ele se aproximou.
- Agora, toca-me os dedos. Ele a tocou. Então, a carne se fez pedra. E a pedra, enfim, se fizera carne.