domingo, 12 de abril de 2009

Da natureza das pedras


Por 37 anos – e por diferentes motivos – ele acordara sempre antes do sol.

Se, ainda criança, poucas horas de sono bastavam-lhe, ao crescer, a insônia parecia ter-se casado bem com seus precoces deveres: rumar diariamente para a longínqua cidade, ao fim das madrugadas, para garantir o sustento da mãe e da irmã.

Pedreiro, menos por escolha que por destino, conhecia a fundo a ciência de seu ofício há mais de três décadas: afinal, parte de uma cidade nascera de suas mãos.

Após essa eternidade de horas, semanas, meses e anos de tijolo, areia e cal, o fato é que um temporal castigara aquele final de dia, o que alterou a rota do pedreiro, que deveria tomar um outro ônibus na estação, pois havia perdido o seu.

Três quarteirões e duas esquinas depois, a chuva engrossara, forçando-o a se abrigar no Museu, naquele instante tão ermo e solitário quanto ele.
Fez a leitura das nuvens, prognosticou a duração do dilúvio e resolver fazer hora ali dentro. Pareceu-lhe um labirinto com infinitas passagens e salas a se multiplicar.
Parecia perdido.
Sentou-se junto a uma escultura de Hermes e ficou imóvel por longos minutos.
- Também és uma estátua?
O pedreiro sobressaltou-se, percorrendo os olhos pela sala vazia e inquirindo pela identidade daquela voz... o que só foi respondido pelo eco de sua própria.
- Jamais havia te mirado antes. És um estranho aqui - continuou a voz.
O pedreiro petrificou-se. A fonte da voz não era humana.
- Agora, estás a me admirar... e pelo motivo errado!
O pedreiro circundou a estátua, investigou cada detalhe e deteve-se diante dela, mudo e fascinado.
- Movimenta-te com harmonia!
Quisera eu poder fazer o mesmo.
E, no entanto, sempre estão a pagar para me ver estática.
O pedreiro assentiu e arriscou, ainda surpreso:
- Talvez imaginem como você era antes de ser o que é. Como alguém conseguiu trabalhar o mármore com tanta perfeição!
- Ora! Eu sempre existi. O escultor apenas retirou os excessos de pedra.
- E quanto tempo faz isso? - Vinte e cinco séculos. O pedreiro assombrou-se mais uma vez e emendou:
- Quanta história você não deve ter visto!
- É exatamente o contrário: miram-me por ser a história...
- Quantos lugares você não deve ter conhecido!
- Meu destino é rodar eternamente o mundo.
- E quantas pessoas também...
- Reis e rainhas já estiveram aos meus pés.
- Sem falar que você nunca vai morrer!
- Sim, percorro os séculos insone... eu que só queria dormir... eis meu fado, meu fardo!
- Mas como? Quem não desejaria ser como você?
- Acaso, desejarias trocar de lugar comigo?
- Mas porque você viveria a vida de alguém que só conhece as pedras e que nunca saiu de onde nasceu?
- Mas eu também sou feito de pedra... desta matéria fiz minha casa... eu sonho com o movimento...
- Mas movimento é o que só você conhece! Está hoje aqui, mas amanhã e depois e depois, sempre em algum lugar distante, longe!
- Uma vida breve... um quintal, trabalhar a pedra até morrer: isso soa a ti como uma prisão?
- O que você sabe sobre não ter escolha? Não ser percebido? Sobre não dormir? Não distinguir a vida do trabalho? Eu devolvo a você a proposta: trocaria de lugar comigo?
- Ora, jovem humano, não pensaria duas vezes! Após um silêncio prolongado, a escultura prosseguiu:
- Se almejas largar tua sorte e tornar-te como eu, aproxima-te!
Ele se aproximou.
- Agora, toca-me os dedos. Ele a tocou. Então, a carne se fez pedra. E a pedra, enfim, se fizera carne.




terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Receitinha para bem viver!

Como manter-se jovem

1. Deixe fora os números que não são essenciais.Isto inclui a idade, o peso e a altura.Deixe que os médicos se preocupem com isso. Afinal, é para isso que lhes paga!.

2. Mantenha só os amigos divertidos. Os depressivos puxam para baixo.(Lembre-se disto se for um desses depressivos!)

3. Aprenda sempre:Aprenda mais sobre computadores, artes, jardinagem, o que quer que seja. Não deixe que o cérebro se torne preguiçoso.'Uma mente preguiçosa é trabalho do diabo.' E o nome do diabo é Alzheimer!

4. Aprecie as pequenas coisas

5. Ria muitas vezes, durante muito tempo e alto. Ria até lhe faltar o ar.E se tiver um amigo que o faça rir, passe muito e muito tempo com ele / ela!

6. Quando as lágrimas apareceremAguente, sofra e ultrapasse.A única pessoa que fica conosco toda a nossa vida somos nós mesmos.VIVA enquanto estiver vivo.

7. Rodeie-se das coisas que ama:Quer seja a família, animais, plantas, hobbies, o que quer que seja.O seu lar é o seu refugio.

8. Tome cuidado com a sua saúde:Se é boa, mantenha-a.Se é instável, melhore-a.Se não a consegue melhorar, procure ajuda.

9. Não faça viagens de culpa. Faça uma viagem ao centro comercial, até a um país diferente, mas NÃO para onde estiver a culpa

10. Diga às pessoas que ama que as ama a cada oportunidade.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Paisagens


Há dias em que penso ter a idade das estrelas;
outros em que sinto que ontem nasci.

Há coisas que ficaram velhas, pelo caminho, como rosas outonais, que morreram e para as quais eu também morri...
as embalo como lembranças sem nostalgia...

Há coisas permanentes: a mudança, a crença de poder fazer durar tudo que nos dá prazer de existir...
a luta contra o tempo e os desejos adversos;
a vida sempre aquém, o gozo sempre onde além...
as cativo como dádivas intempestivas...

Há novidades também: o corpo lentamente a trair a idade interior, a urgência de as mãos reterem o essencial e a fatura das decisões de 10 anos atrás.

Há a perplexidade da defasagem entre o que busquei e o que agora desejo (acolho os fantasmas de mim)...
a fugacidade de coisas que se anunciaram perenes...
quando a eternidade só pertence às estrelas...

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Mínimas

Não existem garantias
Apenas a vida a longo prazo
Ou a perder de vista
Pra inspiração não há aspirina
Nem pra coração partido, anestesia

Só vingam mesmo as promissórias das promessas vencidas
Pra escolhas não há avalista
Pra sonhos não cabem analistas
Pra declarações, solamente pedidos de vista
O maior vício será a rotina?
Saudade se mata ou vive de ressurgir das cinzas?
Vida, me diga: qual será a saída?

Teoria do Caos

E se Colombo tivesse naufragado
E Barbosa, defendido?
Se o sonho não tivesse acabado”
E nem Eva, mordido?
Se o átomo não fosse fissurado
E Descartes não tivesse duvidado?
E se Lutero fosse analfabeto
E Freud não fosse médico?
Se Judas não tivesse traído
E Sócrates houvesse abjurado?
E se Deus não tivesse morrido
Nem o rock nascido?
Qual teria sido seu destino?

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Curriculum Vitae Duvidoso



Sabe esses dias que vc acorda com ergofobia?
Sabe essas horas que a melhor saída é ir embora?
Sabe essas dores que a gente cultiva como flores?
Sabe esses papos tão cheios de atos falhos?

Sabe esses encontros com sabor de avant-première?
Sabe esses beijos que te sugam as palavras?
Sabe esses olhares telepáticos?
Sabe aqueles toques orgiásticos?

Sabe essa coisa de se comprazer na dor?
Sabe ser bossa nova com alguém rock´n´roll?
Sabe aquela solidão de grand canyon?
Sabe aquele silêncio digno dos templos?

Sabe ser Carlito a azarar Marilyn Monroe?
Sabe estar em Amsterdã e ser do interior?
Sabe esse coração na opção stand by?
Sabe quando o corpo te trai?
Sabe não ter vaga e sobrar fila?

Sabe essas promessas com jeito de campanha?
Sabe ter vocação pra acrobacia E equilibrar dores, contas e arritmias?
Sabe de algum prozac pra desgosto? Sabe se valium vale pra agosto?
Sabe se consideram especialidade ser um especialista em generalidades?
Sabe?


Ouvi, ontem, que não há nenhum espelho igual à outro, por conta de angulações matemáticas... Isso significa que sempre haverá algum ...